Dizer não à violência


Sérgio de Almeida Correia,

“Um homem não pode fazer o correcto numa área da vida, enquanto está ocupado em fazer o errado noutra. A vida é um todo indivisível” 

Mahatma Gandhi

 

Os acontecimentos de Oslo, como os que ocorreram há dois dias no Texas, num casamento, ou os que com cada vez maior regularidade acontecem por esse mundo fora, da Finlândia ao Brasil, da Bélgica às Filipinas ou dos Estados Unidos à Alemanha ou a Inglaterra, sem esquecer Portugal, para além da natural comoção que provocam, em especial quando são visadas crianças, idosos, gente indefesa, continuam a ser incapazes de gerar um movimento à escala global contra o acesso fácil e em massa a armas de fogo e a materiais explosivos.

 

Nos Estados Unidos, a poderosa NRA (National Rifle Association), apoiada em homens como Charlton Heston, no lobby dos fabricantes de armamento e no “Second Amendment”, tudo tem feito para manter livre o acesso às armas por parte de qualquer cidadão. O resultado têm sido carnificinas regulares, em lugares públicos e privados, escolas e restaurantes, e a perda indiscriminada de vidas humanas. É claro que não é o facto de nos EUA continuar a ser aceitável a pena de morte que justifica os massacres ou a facilidade de acesso de qualquer indivíduo aos supermercados de armamento. Mas a forma como os EUA continuam a encarar o acesso às armas tem ajudado a disseminar uma cultura de violência que se manifesta desde a mais tenra idade e que ganhou adeptos no resto do mundo, incluindo na Europa, sob as mais variadas formas e de que a existência de videojogos onde os jogadores se dedicam “a liquidar” alegremente os seus semelhantes é apenas um exemplo.

 

Em Portugal também temos tido exemplos da facilidade do acesso a armas e basta percorrer as páginas dos jornais diários para fazer a estatística do número de vidas humanas que se perde em razão das armas que por aí circulam. Dos motivos mais fúteis aos sequestros e assaltos, não há dia que passe sem que uma arma de fogo produza estragos.

 

O que aconteceu em Oslo certamente que não terá qualquer influência no que irá continuar a passar-se nos Estados Unidos, pois que já se viu que não será a morte de dezenas, centenas ou milhares de inocentes que conseguirá revogar a Segunda Emenda. Porém, gostava que a morte das crianças de Utoya tivesse algum significado para nós e para a Europa que integramos.

 

Por isso mesmo, desta minha pequena tribuna, lanço um veemente apelo à União Europeia, em especial a José Manuel Durão Barroso, e aos Estados que a constituem, a cada um deles em particular, a começar pelo nosso, no sentido de ser tornado mais difícil o acesso a armas de fogo e às respectivas munições, sendo mais severamente penalizada a sua circulação, detenção não autorizada e a transformação de pistolas de alarme ou armas de caça. Não será possível contribuir para a diminuição da violência, enquanto os Estados forem parceiros dessa cultura, enquanto continuar a ser facilitada a venda de armamento ou se promover junto de crianças jogos e brincadeiras com imitações de armas reais, se venderem brinquedos que apelam à violência e ao ódio, se comercializarem jogos que fazem da morte de seres humanos, ainda que a brincar, a sua razão de ser, ou se tolerar desde a mais pequena infância a existência de jogos de guerra.

 

É tempo de dizer basta. É tempo de se fazer alguma coisa pela erradicação da violência nas nossas sociedades e de construirmos comunidades verdadeiramente civilizadas, livres da violência gratuita e sem sentido, onde o respeito pela vida humana não seja uma palavra vã. As mortes de Oslo não podem ficar impunes e a única forma de honrar a memória dos que pereceram é ajudar os outros a tomarem consciência da gravidade da situação a que se chegou, é lutar e forçar os Estados a tomarem medidas para que situações como essa não continuem a ocorrer perante a indiferença das nossas sociedades e dos nossos governantes.

6 comentários em “Dizer não à violência”

  1. O exemplo dos videojogos, ou das formas cultura em geral, revela algum desconhecimento caro Sérgio.

    Videojogos, filmes, musica, livros, arte ou até os noticiários da noite disseminam uma cultura sim, mas a se a ligação à violência existisse seriamos um mundo muito mais violento dado o crescimento dessas formas de entretenimento.

    Se a massificação e crescimento exponencial que houve na ultima década dos videojogos (ou filmes, ou outros tipos de cultura) de carácter mais violento tivesse ligação, teríamos visto uma igual massificação e aumento exponencial de violência.

    Curioso é que é nos locais onde existe menos essa cultura (países menos desenvolvidos na África ou Ásia) que existem mais casos de “massacres a inocentes”.

    O problema está no ser humano e nos desequilíbrios mentais (associado como dizes bem ao acesso fácil às armas), e enquanto continuar a demagogia de culpabilizar a cultura a verdadeira fonte do problema continuará ignorada…

    Já agora o Anders Breivik só começou a escrever o manifesto depois de várias horas a consumir videojogos, televisão e filmes violentos? Deve ter sido como o John Allan Muhhammed…

  2. Sérgio,

    repetindo um pouco o comentário deixado pelo João, não creio que exista qualquer relação entre a violência nos videojogos e a violência real. Aliás, é um tema que volta de forma recorrente, e dá azo a muito disparate. É verdade que existem muitos jogos violentos, mas o mesmo se pode dizer do cinema, de séries televisivas e até da literatura e da banda desenhada – e não é certamente por aí que o gato vai às filhoses. Concordarei se me disserem que o problema dos videojogos violentos reside na educação e nos pais, que compram jogos inadequados para a idade dos filhos, mas essa é outra questão.

    Também tenho dúvidas que o exemplo americano aqui seja o melhor. É verdade que os EUA são muito mais liberais no que diz respeito à venda de armas do que os países europeus, mas não me parece (corrijam-me se estiver errado) que esse seja o caso da Noruega, onde teve lugar este lamentável atentado, ou o caso da Finlândia, onde ocorreram outros actos de violência “à americana” num passado ainda não muito distante.

    A loucura humana – ou a natureza humana, se quisermos ser cínicos – é que não só não muda, como é indiferente à geografia e às leis.

    (E agora com licença, que vou passar o resto da noite a matar extra-terrestres e a salvar a galáxia no computador 🙂 )

  3. Um mal informado no mínimo. Vindo da esquerda já era de esperar o preconceito a funcionar.

    O aumento da liberdade de posse de arma nos EUA desde os início dos anos 90 coincide com uma diminuição dos homicídios.

    Pode ver aqui a evolução da política dos estados no que respeito ás armas:

    http://en.wikipedia.org/wiki/File:Rtc.gif

    Em 2009 as mortes por homicídios nos EUA estão ao nível de 1960. 5.0.
    Os picos foram o fim dos anos 70 e início dos 90 com valores perto dos 10.

  4. Não é a arma que mata as pessoas, é a mão que empunha a arma. A Suiça é o pais europeu com mais armas por habitante, no entanto é dos que tem menos homicidios. Se calhar, naquela ilha, se houvesse uma arma, para alem da arma do assassino, talvez ele não tivesse matado tanta gente. E ele aproveitou-se disso. Aliás, não sei como com o nivel de criminalidade e a taxa de armas de defesa pessoal que há no EUA (de longe a maior do mundo) haja tão poucos homicidios, comparado com outros países do mundo.
    http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_countries_by_gun_ownership
    http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_countries_by_intentional_homicide_rate
    veja-se o numero de países com maior taxa de homicidio que os EUA.

  5. Assim faz parecer que armas matam pessoas. Salvo em acidentes com a segurança das armas, pessoas matam pessoas. Quando essas mortes deixaram de ser subproduto da natureza humana?

    Desde que a humanidade é humanidade essas mortes acontecem. Muito depois de termos ido embora humanos continuarão matando uns aos outros.

    Videojogos são uma boa sublimação, é melhor matar “bots” digitais, deixando pessoas de verdade com vida. De uma forma ou de outra, a pulsão assassina ainda existe. Sempre existiu. Sempre existirá…

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