A explicação para afirmações proferidas por quem tem obrigação de saber do erro técnico em que se fundamentam ou da sua absoluta inviabilidade prática procura-se, muitas vezes, num acesso de ignorância ou na falha de carácter.
Todavia, é muito provável que os seus autores pretendam, apenas, reforçar o sentimento de pertença. Quem expõe, voluntariamente e em público, total disponibilidade para sacrificar a sua reputação e o mais elementar bom senso aos interesses de um grupo ou organização, transmite um sinal poderoso de identificação.
Com as suas declarações recentes, Cavaco Silva confirmou que integra as fileiras de um certo funcionalismo público. Aquele cujo projecto de vida se reconduz à sobrevivência contra tudo e apesar de todos.

Corro o risco de ser injusto, bem sei. Mas tenho para mim, desde há muito, que, para CS, qualquer medida que qualquer governo tome é avaliada, antes de mais, pelo impacto que ela venha a ter nos seus própios interesses, seja de titular de órgão de soberania, seja de reformado. Prosseguindo o risco de ser injusto, acho que CS tem uma visão do mundo muito estreita e interesseira.
Leio, porém, por aí, que CS estará, com as suas últimas declarações, a demarcar-se de uma governação impopular que lhe permita, a prazo, surgir com uma solução de governo de emergência nacional tutelada por si. Não me espanta. O que já não aceito é que CS não tenha seguido esse caminho, após as penúltimas eleições legislativas, quando já era certo que iríamos enfrentar uma crise económica e política (que ele tinha a obrigação de prever mais do que qualquer outro). Dizem-me que não podia, porque isso poderia afectar a sua reeleição. Obrigado, então. Eu pensei que ajudava a pagar as despesas de um PR para que ele se preocupasse com o país e não com a sua reeleição. Mas, dali, nada me espanta já.
Tudo isto é muito mau, Joaquim. E fica pior se pensarmos que o candidato alternativo foi o Manuel Alegre.