Discussões que não se confundem


Adolfo Mesquita Nunes,

A propósito do manifesto “Todos pela Liberdade”, que em boa hora subscrevi, pediram-me várias vezes a opinião sobre a legalidade e a oportunidade da publicação de escutas ilegais. Reparo agora que ainda não tinha tido oportunidade de escrever sobre o assunto, coisa que suponho ainda vá a tempo de fazer.

 

Não tenho opinião formada sobre a (i)legalidade das escutas do processo Face Oculta publicadas ou por publicar. Mas se as escutas forem de facto ilegais, e há muito boa gente que o nega, ou se a publicação das escutas for, em si mesma, ilegal, não posso, enquanto cidadão que é confrontado com a pergunta “devem tais escutas ser publicadas”, dar outra resposta de princípio que não seja: “não, as escutas não devem ser publicadas” (trata-se de uma resposta de princípio, uma vez que admito a existência de regras deontológicas do jornalismo que criem um ambiente de excepção, que desconheço e sobre as quais não me posso pronunciar).

 

Mas o manifesto “Todos pela Liberdade” não nasceu para pedir a publicação de escutas,  ilegais ou não. Se assim o fosse, não teria estado entre os promotores do mesmo. Nasceu porque, tendo sido publicadas escutas com relevância política, elas obrigam, no entender dos signatários, a explicações.

 

Ou seja, a pergunta que, enquanto cidadãos, nos foi colocada não era já sobre a publicação ou não de escutas mas, isso sim, sobre a relevância política das mesmas após a sua publicação: “deve José Sócrates esclarecer o país sobre o conteúdo das mesmas?”.

 

Se por absurdo um primeiro-ministro é ilegalmente filmado a matar alguém, filmagem essa sem qualquer valor probatório, podem os cidadãos ignorar tais imagens se, por alguma forma, elas se tornaram públicas, alegando que não tendo qualquer valor probatório elas nada provam? A mesma coisa se passa com escutas que, de alguma forma, demonstram ou indiciam (no entender dos signatários, evidentemente) tentativas “de controlar meios de comunicação social privados […] ou, pelo menos, de silenciar as vozes mais críticas e contundentes” (Diogo Freitas do Amaral dixit)?.

 

Estou disponível para uma reflexão séria sobre o segredo de justiça em Portugal, que poucos parecem interessados em proteger, que deve ser feita em tempo e sem a pressão de um especial caso mediático. Mas essa discussão não pode confundir-se com (nem servir para relativizar) aquilo que se espera de cidadãos que são confrontados com indícios constantes de escutas que o Procurador Geral, por meio de uma “decisão jurídico-política” (Diogo Freitas do Amaral dixit) decidiu tornar irrelevantes para a abertura de uma qualquer investigação. (também aqui)

5 comentários em “Discussões que não se confundem”

  1. isso, meu caro, chama-se pensamento circular ou como se diz na minha terra, gato escondido com o rabo de fora. Não deviam ter assassinado o homem (e se o movimento se destinasse a matar o homem, eu não teria estado entre os promotores do mesmo) mas já que isso aconteceu e o cadáver está aqui, então eu próprio cortarei um naco de carne e saciarei a minha fome.

    Meu caro, antes do clã vem a coerência intelectual ou então contentar-nos-emos em consumir os restos de carne dependurada do esqueletos que vamos mantendo no armário

      1. “Não foi possível encontrar a página “www.achoeu.com””

        Não faça apreciações subjectivas sobre quem não conhece e já agora dê a cara e deixe de ter vergonha daquilo que pensa, isso faz-lhe mal, ainda tem um enfarte…

    1. Caro Paulo,

      Não vejo, sinceramente, onde está o pensamento circular.
      Assim como não encontro, nem no manifesto nem em qualquer um dos meus posts, uma afirmação no sentido de assassinato político de José Sócrates. Limito-me a achar, isso sim e com todas as letras, que toda a situação exige, e continua a exigir, um conjunto de explicações por parte do Primeiro-Ministro de Portugal.
      Aceito, como não?, a sua crítica à minha falta de coerência intelectual. Mas não vejo como concordar com ela. Como aqui disse, as discussões em causa são paralelas até, mas não se confundem.
      Um abraço,
      a.

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