Nas últimas semanas tem sido um fartote de gripes à minha volta. Fui apanhado por uma (acho estranho que se diga que nós é que as apanhamos), mas bastante ligeira, o que me deixou satisfeito (gosto quando a minha resiliência me surpreende pela positiva). Agora dizem que o pior já passou. Até ao próximo Inverno, certamente, porque os vírus estão cada vez mais evoluídos e os humanos cada vez mais susceptíveis. Basta constatar a facilidade com que se ofendem.
Quando alguém espirra perto de mim, digo «Santinho». Toda a gente no Porto diz «Viva». Ou «Biba», dependendo da zona onde cresceu. Noutros pontos do país dizem «Saúde». Gosto mais de «Santinho», apesar da conotação com doenças outrora mortais. É mais incongruente. Como os próprios espirros.
E a propósito. Sem surpresa, os meus olhos preferidos pertencem a uma mulher. De um momento para o outro, o meu cérebro nem consegue pensar nuns olhos masculinos dignos de registo. Os do Paul Newman, talvez, que hoje em dia já devem ter perdido grande parte do encanto. Naturalmente, o meu sorriso favorito também é de uma mulher. Há dezenas deles em dezenas delas, para ser sincero. Sorrisos que fazem com que me apaixone durante dez segundos, dez minutos, dez dias. Com vozes, é mais difícil. Tenho – e ouço – mais música cantada por mulheres do que por homens, o que há-de significar alguma coisa, mas certas vozes femininas são instrumentos de tortura que deviam estar cobertos pelas convenções aplicáveis. Os meus risos preferidos voltam a pertencer a mulheres – e ao Ricky Gervais. Contudo, se pensasse no assunto, teria que classificar como meu favorito o espirro de um homem. L., lá do emprego. Tem mais ou menos a minha idade e um espirro by the book. Composto, sereno, sonicamente irrepreensível. A exacta tradução de um balão de banda desenhada: «Atchim!» Tão diferente do meu, espalhafatoso e anárquico.
Mas não penso nisso, claro. Ninguém pensa.

Deixou-me aqui a pensar porque raio é que espirro de rajada. Deve ser reflexo de raramente poder ser considerada politicamente correcta.
Tenho uma colega que também espirra sempre pelo menos quatro ou cinco vezes seguidas. E, no caso dela, com intensidade suficiente para fazer pássaros do lado oposto da cidade levantarem voo. Se ainda não tiver morrido de ataque cardíaco, um destes dias estrangulo-a. Mas estou certo de que os seus espirros geram menos comoção nas redondezas… 🙂
ah,ah, ah…cada um espirra como pode, não é coisa que se aprenda:) – aprendemos a domesticar os espirros; mas essa contenção retira-lhes toda a verdade e decorrente agrado.
Quanto aos olhos e olhares: os de Paul Newman são infalíveis, perfeitos para observação desapaixonada mas contemplativa. Mas aquela coisa do “só se vê bem com o coração” e “o essencial é invisível para os olhos” é outro modo de olhar. Mais enraizado e poderoso.
Do significante riso trato noutro dia.