Diário semifictício de insignificâncias (35)


escafandro,

Uma das poucas coisas que dão satisfação à minha mãe é agora já poder morrer. Até há poucas semanas, se morresse não poderia ser sepultada na campa dos pais. Uma das três irmãs (todas mais novas) antecipara-se. Todavia, agora já passou o número de anos suficiente para que o enterro naquela campa volte a ser possível. Foi a melhor notícia que ela teve nos últimos tempos.

Não sei se me sinta satisfeito por ela (com ela), se deprimido. Frequentemente, eu apanhava-me a pensar que o raio do prazo era o principal motivo para ela se manter viva. Agora, resto eu, que estou quase sempre longe, e, em menor grau, o meu pai, que hoje em dia a preocupa e exaspera em igual medida.

Ainda por cima, sobra-lhe uma irmã. É certo que se trata da mais nova de todas, e que parece andar de boa saúde, mas não deixa de constituir um risco apreciável: a minha mãe não o admite, mas aquilo que neste momento mais a assusta é poder ver-se novamente ultrapassada na corrida à campa dos pais.

8 comentários em “Diário semifictício de insignificâncias (35)”

  1. A minha mãe enviuvou aos 57 anos, a mesma idade que o meu pai tinha quando nos deixou. Já vai para 24 anos.
    Todos os anos, desde 1994, em todas as reuniões familiares, reitera o seu cansaço pela vida e garante aos presentes que é o último ano que estará presente naquele ou noutros eventos com a família. Isto para animar as hostes é do melhor que há. Acredito qua minha mãe prepara cuidadosamente o discurso da praxe com as variações que as circunstâncias do momento impõem.
    Ultimamente em todas reuniões , damos a volta ao texto e em vez de acabar o monólogo com a proverbial lágrima, acabamos todos a chorar de tanto rir.
    Mas lá no fundo sabemos que um dia a conversa fará todo o sentido.

  2. Espero conseguir ser diferente, mas não sei. A morte é a preocupação de quem já viveu quase tudo. Não falam dela para lembrar os outros, é um aviso para si mesmos, um autoconvencimento. Creio bem, por mais que o digamos e em alguns momentos o desejemos, que nunca estamos preparados para a morte. Com algumas excepções doentias e pouco normais, o que nos chama é a vida nos seus múltiplos caminhos, daí que não entendamos a morte.
    Mas, encontrar um lugar para o corpo é preocupação de muitos. Continuamos a tratar a morte como se vida fosse: queremos ficar junto de quem amámos, quiçá, pertinho dos que nos fizeram mais felizes.

  3. O meu pai e o meu avô paterno lembravam-se mais daqueles que tinham sido do que daqueles que lhe tinham sobrevivido.Comiam a vida de olhos fechados.

    Tanto um como outro eram dois perfeitos narcisistas que escondiam a saudade que sentiam deles , numa outra, fingida, dos que já tinham partido. Cuidavam mais dos mortos do que dos vivos. Faziam da auto comiseração palavras cruzadas.

  4. Lá no fundo, bem lá no fundo, sempre rola um medinho de “focinho pontiagudo” que, como o mundo, pula e avança dentro de nós, à mistura com um esforço insano para o determos, do tipo “não está nada provado que tenhamos todos que chegar a velhinhos, velhinhos e/ou nos finarmos um dia destes” … A verdade é que, para já, a vida me interessa muito mais do que o seu reverso, partindo do princípio lavrado e consagrado por eminente filósofa local de que “estar morto é o contrário de estar vivo”. Gracias à la vida!

  5. No que diz respeito à morte, o que é importante é sermos pontuais. Não vale a pena adiantá-la ou retardá-la na medida em que provoca imensos transtornos à existência.
    Diz-se que a morte é a musa dos filósofos. Pois eles alinham sua vida por questões que vão para além do que lhes é possível abarcar.

    O cristianismo oferece-nos algo mais substancial: evitar a morte, por isto mesmo afirma “deixai que os mortos cuidem de seus mortos” e evitar a 2ª. morte, aquela que advém dos que vivos se deixam definitivamente morrer nas ondas do que sendo passageiro nada acrescenta a esta Vida.

    Concluindo, a Vida Eterna está ao alcance através da Palavra, pois o Verbo se fez carne e habita entre os homens; e também entre as mulheres quando se portam bem e fazem belos cozinhados com aquelas mãos de fada abençoadas de 3 em pipa.
    Finalizando, a vida não importa pela sua duração mas pelo emprego que se lhe dá.

  6. O José António poderia talvez explicar-me como é que isto se passa: quanto tempo tem que passar até que a campa possa voltar a ser utilizada? Quando volta, o que se faz aos caixões e corpos que já lá estavam? Já apodreceram totalmente? Ou ainda não?
    Eu peço desculpa por fazer estas perguntas, mas é que realmente não sei, e gostaria que me explicassem.

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