Diário semifictício de insignificâncias (13)


escafandro,

Num episódio da segunda temporada da série Friends, uma mulher atraente (papel interpretado por – ele há coincidências – uma igualmente atraente Brooke Shields) interessa-se por Joey, tomando-o pela personagem do médico que ele desempenha numa série televisiva. (É obviamente pela possibilidade de exegeses tão profundas como esta – ele é um actor numa série televisiva dentro de uma série televisiva – que eu gosto de Friends, não pelo estilo de humor, relativamente standard.) Como a mulher é atraente (repito: igualzinha à Brooke Shields), Joey mantém a ilusão durante uns tempos e depois, perante a acumulação de problemas, despacha-a, confessando não ser o médico da TV mas o irmão gémeo deste, numa fascinante transliteração – ou qualquer coisa assim – do idioma típico de um determinado estilo de série televisiva para o interior de outro estilo de série televisiva.

Pensei em tudo isto (sim, até nas partes da exegese e da transliteração) na Feira do Livro, em frente ao stand da Tinta-da-China (fraquinho, sem os lançamentos mais recentes), quando um rapaz magro, de vinte e tal anos, usando óculos de lentes grossas e movendo-se de modo furtivo, respondeu em sobressalto a uma questão banal do funcionário: «Quer mesmo esse exemplar ou posso tirar outro daqui da prateleira?» E pensei nisto porque o rapaz me pareceu outra personagem de outra série televisiva: Silicon Valley, da HBO. Numa atitude similar à da mulher de Friends, estive quase a abordá-lo para lhe perguntar o que anda a fazer no Porto – e para lhe pedir o número de telefone de Monica, a adorável semi-nerd da série.

Um pouco mais a série sério, os nerds enternecem-me. Em parte, isto acontece porque terei sido um, numa versão que conjugava a década de 1980, a inexistência de computadores e uma cidade pequena do interior de Portugal (até me arrepiei). Aliás, provavelmente ainda sou, agora numa versão de meia idade, relação de amor-ódio com o smartphone e carradas de cepticismo. Porém, a ligação umbilical não explica tudo. Os nerds (os genuínos, não os imitadores de pacotillha que, por fenómeno de moda, adoptam o estilo de forma irónica – ide à merda mais a vossa presunção oca) são emanações puras de tudo o que faz dos humanos, humanos: predomínio da actividade cerebral sobre a actividade física, hiper-consciência de si mesmos, capacidade de sobreviver, de prosperar (não por acaso, a maioria dos multimilionários recentes são nerds), e, na maioria dos casos, de acasalar (admito que deve ser mais fácil depois de prosperar), não obstante as tremendas desvantagens físicas e comportamentais. Os nerds são o exacto oposto dos elementos das claques de futebol. Haverá algo digno de mais respeito?

Mas independentemente da opinião que se tenha deles (de nós), considerando que a ficção televisiva resulta quase sempre da destilação ao essencial – muitas vezes ao ponto da caricatura – de um amplo e até paradoxal conjunto de traços, é estranho encontrar na vida real exemplares tão aparentemente decalcados dela como aquele rapaz. Ao conseguir ser simultaneamente mais concreto e mais extravagante do que qualquer personagem ficcional, ele leva-me a pensar (por que diabos não vou antes tentar fazer flexões?) que não é verdade ser a realidade mais estranha do que a ficção. Por exemplo: na vida real, a forma como Joey resolve o seu problema dificilmente teria êxito. No limite, a realidade consegue ser tão estranha quanto a ficção, mas é muito mais tridimensional e interactiva (se eu falasse com o rapaz, provavelmente ele reagiria), para além de ter um potencial superior para gerar consequências efectivas (há poucas pessoas como a coitada da Brooke Shields). É isto que dá origem ao suplemento de estranheza.

Ou qualquer coisa assim.

O rapaz levou um exemplar (retirado da prateleira) de Os Cadernos de Pickwick, de Charles Dickens. Fica mais uma vez demonstrado o elevado grau de inteligência dos nerds. Algo que eu já sabia – ainda que de forma instintiva – na década de 1980.

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