Diário do coronavírus (9)


Pedro Correia,

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Quando tantos de nós fomos condenados a esta espécie de prisão domiciliária, ainda antes da imposição do inédito estado de emergência, percebi que muita gente amiga se congratulava – dentro da lógica de que devemos ver sempre o que possa haver de bom naquilo que é mau. Gente que se sentia animada por «ter finalmente oportunidade de passar mais tempo em casa», por poder «fazer coisas para que costuma faltar a disponibilidade e a paciência», por «conseguir enfim pôr as leituras em dia».

Afinal, decorridas sete semanas, vou verificando que muitas destas metas ficaram pelo caminho. Porque as pessoas não conseguem desligar-se da necessidade de estarem sempre “conectadas com o mundo”, seja lá isso o que for. Porque, mesmo fazendo dieta alimentar, são incapazes de fazer uma dieta de notícias – quase sempre as mesmas, e agora sobre um tema só, repetido até à exaustão dia após dia e trazendo a palavra “morte” sempre a reboque para suscitar o pânico, indutor de gordas audiências. Porque, em matéria de leituras, optam quase em exclusivo por navegar horas sem fim nas chamadas “redes sociais”, lendo sobretudo o lixo, reencaminhado pelo cunhado da prima do vizinho da conhecida. 

 

Contra a corrente, imponho a mim próprio uma rigorosa selecção de consumo noticioso. Só escuto quem comprovadamente merece ser escutado, dispenso os sermões dos novos tele-evangelistas agora em voga, mudo de canal assim que me soa a propaganda seja do que for, reservo um tempo máximo para o fluxo informativo. Que, pelo que me vou apercebendo, equivale ao tempo mínimo para muitos outros.

Passo ao lado das opiniões arrebanhadas das “redes sociais”, não consumo nem partilho os incontáveis memes que me chegam das mais diversas proveniências, não gasto um minuto com “cenários” que reproduzem outros “cenários”, quase sempre de teor apocalíptico, em obediência à mesma lógica de alinhamento dos telediários cá do burgo. Há três meses, ninguém era capaz de prever o que tem vindo a suceder em toda a parte e a directora-geral da Saúde até comunicava ao País que «não há grande probabilidade de um vírus destes chegar a Portugal». Para quê, portanto, dar dois tostões pelo papo furado de tudólogos em risco de desemprego?

 

E, sim, vou conseguindo pôr leituras em dia. Não a “leitura” de vídeos com gatinhos ou das novivelhas anedotas a circular na Net. Nestas sete semanas li doze livros completos – não incluindo, portanto, trechos ou capítulos seleccionados de outros. Sete de autores nacionais, prosseguindo a maratona iniciada há quase um ano. E romances ou novelas que há muito constavam da minha lista de prioridades – títulos como Longe da Multidão, de Thomas Hardy, A Tia Julia e o Escrevedor, de Vargas Llosa, ou O Físico Prodigioso, de Jorge de Sena.

Verifico agora que cinco destes doze foram releituras. Confirmando uma tendência que tem vindo a acentuar-se: gosto cada vez mais de revisitar livros que noutras épocas me tocaram por algum motivo que pode ou não repetir-se. E elaborando a minha lista muito pessoal de clássicos, sem necessidade de que outros me debitem cânones. Com a certeza antecipada – como garantia Italo Calvino – de que «um clássico é um livro que nunca acabou de dizer o que tem a dizer».

Assim consigo, em boa parte das horas destes meus dias de recluso, colocar o Covid-19 numa prateleira de difícil acesso. Parafraseando o outro, há vida para além do vírus.

30 comentários em “Diário do coronavírus (9)”

  1. Devem ter-se esquecido de nos avisar – aos internautas incautos – que estava a decorrer o concurso ‘quem quer devorar mais livros em menos tempo’. Só assim se explica que ainda estejamos a perder tempo a tentar ter uma vida normal, rindo com patetices. Pronto, pronto. Vamos já pôr as palas de burro e começar a ler coisas decentes virados para a parede.

    1. Seguramente a senhora precaver-se-á para uma criteriosa escolha de parede sem janelas a fim do máximo aproveitamento de concentração literária.

      Desejo-lhe uma excelente semana, … de proveitosas leituras. 🙂

    1. Muitas vezes chegam-me os mesmos ‘memes’, vídeos e anedotas, vindos por vias diversas, com minutos de intervalo. Ponho-me a pensar que há pessoas realmente incapazes de preencher melhor os dias. Quando esta longa reclusão chegar ao fim, muita gente não terá aproveitado quase nada do único bem que desta crise nos chega: o tempo.
      (A par da poluição sonora e atmosférica, que diminuiu muitíssimo e é também um enorme bem dentro de todo este mal.)

    2. Ainda gostava de sugerir um meme. Vejamos: na China os mercados abertos de animais vivos continuaram a ser prática corrente, mesmo depois do problema da gripe das aves, que surgiu e se disseminou em mercados desse tipo. Ora a China nunca os proibiu porque alegam fazer parte da herança cultural do país. Em Portugal não suspendem, ou adiam os festejos do 25 de abril, porque alegam fazer parte da história de Portugal. Ora isto não parece semelhante? A Itália por outro lado, suspendeu os festejos do fim da ocupação nazi.
      A China é comunista, e nós somos o quê?

  2. A Amazon continua viva. Pelo que me atrevo a recomendar tudo do Julian Barnes, a começar por Nothing to be frightened of, sobre a morte, um passo que muita gente se esforça por esquecer que é inevitável. E para leitura mais prolongada a saga do destemido capitão Jack Aubrey e seu companheiro, o fisico Stephen Maturin, de Patrick O’Brian. Afinal, são só 20 livros, e excelente companhia em qualquer ilha deserta.

    1. Grato pelas sugestões. Por enquanto não preciso de recorrer à Amazon: vou-me abastecendo na minha biblioteca onde não faltam livros que (felizmente) nunca li.
      Agora ando a ler ‘Bilhar às Nove e Meia’, de Henrich Böll. Depois esperam-me as ‘Andanças do Demónio’, de Jorge de Sena.

  3. Nem mais! E eu até sou do “grupo de risco”, mas este silêncio (agora menos),ouvir os pássaros a chilrear em Lisboa ao fim da tarde, até me faz esquecer o vírus. Já só vejo notícias ao fim do dia.

    1. Moro numa das zonas mais barulhentas e poluídas de Lisboa, perto do aeroporto. Neste aspecto, têm sido dias balsâmicos. Ruído reduzido ao mínimo e poluição atmosférica quase residual.
      Há sempre algo bom naquilo que é mau.

  4. Livro amigo, a malta está contigo.

    Naufragado pelo teclado,
    esqueci-me de ti, amigo,
    e tu foste em meu destino,
    uma ilusão nada mais.

    Reencontrar-te trouxe valor acrescentado
    luminosidade às veredas do meu trilho,
    indeléveis labaredas de prazeres esquecidos,
    pelos fogachos dos de outrora, agora preteridos.

    Foi num tempo sem rumores,
    em que tu livre e vivaço,
    afastavas sem temores,
    leituras do teu espaço.

    Hoje és todo um letrado,
    quando o teclado repudiaste,
    e desolado pelo que perdeste,
    te tornaste voraz leitor inconformado

      1. Ah! pelas musas.

        Visualizando a preceito,
        pouco há a adivinhar.
        Singular falso conceito,
        Verdadeiro, plural acrescentar.

  5. Por acaso livros tenho lido pouco. Reli o D. Quixote de la Mancha, edição original. Oitocentas páginas imprensas em caracteres medida oito do mais puro deleite. Mas escrevi uns contos, que, naturalmente ninguém vai ler.
    Televisão não vejo, ou para ser mesmo verdadeiro só vejo o que me interessa, como mesmo há bocadinho sucedeu. Um Sporting X Benfica para o campeonato de 2011 em que não obstante o favorzinho do vosso amigalhão Soares Dias, não impediu que o Vermelhão reduzido a dez quase desde o início, não ganhasse por 2 a 0

  6. Esta quarentena, que me obrigou à clausura, deu-me a oportunidade de perder, e digo perder não no sentido figurado, tempo com a nossa comunicação social. E verifico que os telejornais, programas de opinião e até de comédia, mais não fazem que propaganda. Vão dando as notícias consoante o vento. Se o vento está a favor das estatísticas, lá vai o opinador fazer autênticos felácios ao nosso PM. Reparo que tem andado tudo a poupar a nossa pobre DGS, que não consegue deixar de se contradizer a cada semana, omitem o grandioso Centeno, agora que o efeito Cristiano Ronaldo, sem conjunturas favoráveis, já não tem sequência, e nestes últimos dias fazem a mais óbvia vénia ao atual poder, que é ignorarem o maior ignóbil da nossa política, o senhor presidente da AR. Por isso, como dizia uma comentadora acima, dieta de notícias, sim por favor.
    Na internet as coisas não vão melhores. A diferença é que ainda temos pessoas e entidades que preferem informar com rigor e isenção, em vez de matarem os espaços com notícias sobre os absurdos do trump e do Bolsonaro, para não os matarem com os absurdos dos governantes cá do burgo.
    Ao menos na web, podemos escolher o que ouvir e ler, pois na nossa televisão, fazemos zapping e do 1 ao 8, parece que estamos a ver a esquerdatv, ou um qualquer canal venezuelano falado em português.
    Por isso, o Pedro tem razão, ao menos os livros não nos defraudam, são o que são mesmo ao fim de 50 anos, nós é que os podemos interpretar de maneira diferente com 18 e com 58.

  7. Óptimo sistema para preservar a sanidade mental. Tento fazer o mesmo. Até porque não é preciso perder muito tempo a ouvir/assistir a jornais monotemáticos. Em poucos minutos a informação fica actualizada.

    1. É uma estatística macabra, mas valia a pena contabilizar quantas vezes a palavra morte, incluindo os seus numerosos derivados, é mencionada hoje em dia num telediário-padrão.
      Se não criarmos antídotos contra este deprimente fluxo monotemático chegamos a becos sem saída, Teresa. Como se adiantasse alguma coisa consumir horas e horas diárias destas notícias.
      Há, de facto, mais vida para além do vírus. Tem de haver.

  8. Mas qual prisão domiciliária?

    Pode sair para passear o cão, fazer compras, fazer exercício físico, tomar café em chávena descartável.
    As prateleiras dos supermercados estão repletas.

    O vosso problema é nunca terem vivido em ditadura. Tudo vos ofende.

    Trabalhar na construção civil também vos teria ajudado a perceber o conceito de prisão.

    Cambada de pequenos burgueses armados em revolucionários de sofá.
    Ficam ofendidos por estarem em casa a ler e a ouvir música. Nem homens de cultura sabem ser.

    Minha Nossa Senhora, ao que este País chegou.

    José de Bêtum

  9. Se vivessem numa barraca sem luz, sem livros, musica, e não poderem ir a rua.
    Estes sim, têm razão para se queixar ,os outros cheios de livros e musica passam a vida a reclamar.

  10. Minas de San Francisco de Fernando Namora faz um retrato fidedigno do trabalho mineiro. Li o livro, mas não cheguei a saber de que minas fala ele.

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