
Dia do Pai confinado no apartamento, com a minha filha à distância: todo o contacto é virtual.
Eis um paradoxo do nosso tempo: habitamos um hemisfério que idolatra a natureza em proporção inversa ao desconhecimento que dela temos por estarmos mergulhados em múltiplas ilhas digitais que funcionam como mecanismos de substituição. Quanto mais estas bolhas se ampliam, maior é a sensação de vivermos num universo alternativo, progressivamente afastado do mundo real.
Entretanto, alguém me põe a par da “linguagem inclusiva”: Dia do Pai é expressão passadista, condenada à extinção. Agora diz-se “dias dos pais”, em obediência ao cânone da correcção política. Tal como a palavra mãe vem dando lugar a “progenitora”. E a mulher grávida passou a denominar-se “ser gestante” de modo a abranger nem sei bem o quê.
Dizem-me que por estes dias há pequenas legiões de gatos e cães abandonados por donos que passaram a olhar para os animais com outros olhos: imaginam-nos agora potenciais “portadores de vírus”, além de um peso acrescido no minguado orçamento doméstico, castigado pela recessão que já espreita e que nenhum paliativo governamental promete mitigar. Estes bichos, até agora denominados “animais de companhia” na etiqueta socialmente correcta, eram para muita gente o único e último vínculo à natureza que tanto se idolatra – e que inclui vírus e bactérias, transportando consigo uma crueldade inata, imposta pela lei do mais forte e pelo instinto de sobrevivência do mais apto. Nada consentâneo com aquilo a que chamamos civilização, erigida precisamente contra o fatalismo ritualista dos ciclos naturais.
Pressinto que estes dias serão terríveis para muita gente confinada a espaços herméticos de 30 metros quadrados, coabitando com pessoas que só costumavam ver em horários desencontrados e a quem se ligam por frágeis vínculos afectivos, sujeitos às pressões centrípetas para o isolamento que as novas tecnologias proporcionam. Beijos e abraços abolidos no quotidiano, com toda a sua carga simbólica, reforçam esta tendência para a misantropia exacerbada que constitui uma das marcas inequívocas deste início de século.
Desperta o primeiro dia neste país agora em estado de emergência, com um sol igual ao de outra manhã qualquer. Fotografo-o a elevar-se no horizonte, sobre a silhueta dos prédios fronteiros, enquanto raros transeuntes circulam no passeio em ritmo apressado. A natureza é assim, indiferente às dores e preocupações dos seres humanos.
Recordo outro momento de emergência na nossa vida colectiva, era eu adolescente, quando foi imposto o estado de sítio na região de Lisboa, em 25 de Novembro de 1975. Havia recolher obrigatório, as pessoas não podiam circular de noite sem salvo-conduto, a tropa patrulhava as ruas. Os jornais estavam proibidos: uns passaram a imprimir-se no Porto, de onde chegavam com uma aura de clandestinidade e eram lidos com avidez; outros, como o Diário de Notícias de José Saramago, fecharam por determinação superior.
A RTP emitia a preto e branco dos estúdios do Monte da Virgem, em Gaia, exibindo os rostos do poder – todos militares: Costa Gomes, Pinheiro de Azevedo, Jaime Neves, Pires Veloso, Vasco Lourenço, Melo Antunes e um emergente Ramalho Eanes, de patilhas e óculos escuros, que meio ano depois ascenderia a Presidente da República. Só ele e Lourenço restam desse tempo em que Portugal parecia transformado numa imensa parada de quartel. Com Eanes, símbolo supremo do Thermidor português, o período revolucionário chegou ao fim.

Recolhidos durante duas semanas em casa, sem aulas, entretínhamo-nos com a leitura ou a ouvir música. Rodeados de livros e discos, à moda antiga. A internet não tinha sido inventada nem dispúnhamos de comunicações telefónicas instantâneas, as plataformas com múltiplas séries eram inexistentes e a oferta actual de centenas de canais televisivos não passava de utopia. Restava a RTP, exibindo fardas e camuflados. Só faces masculinas.
Ainda não se popularizara a igualdade de género nem a sociedade civil. Era outro século.

Dos melhores textos que tenho lido do Pedro. Abraço e tudo de bom
Fique bem por aí, meu caro. Grato pelas suas palavras.
Espero que goste :
https://vorph.blogs.sapo.pt/campo-g eres-371757
https://vorph.blogs.sapo.pt/cantar-de-p rocella-dos-arcana-372020
Ena, muito bom. E que saudável inveja você agora me provocou. O Gerês constava do meu plano de deslocações para este ano – plano que foi torpedeado pelos motivos que sabemos.
Agora as deslocações são ao mercado (enquanto se mantiver aberto) e à mercearia do bairro (se entretanto não fechar). Farmácia, felizmente, não preciso.
Muito bom. Muitos vão ser postos à prova, agora que ficarão em, casa com a família. Irritações, manias, vícios, claustrofobia, dificuldade de comunicação etc serão os primeiros sintomas deste vírus. O homem foi feito para se abrir aos outros e não para ficar em casa fechado sobre si mesmo. Espero sinceramente que as famílias se aguentem espiritualmente .
É isso. Todos estamos a ser postos à prova – nas grandes, médias e pequenas coisas. Nenhuma é irrelevante.
Belíssima passagem.
Um bom dia, o melhor possível.
Para si também, Isabel. O melhor possível. Haja saúde.
Um bom Dia do Pai para ambos.
Grato, Sérgio. Abraço amigo.
À DGS, ao MS e ao MAI: obrigado pela eficiência e prontidão com que me têm informado. Muito obrigado.
Começaram tarde mas têm estado bem, sim. É fundamental manter as pessoas informadas.
“Rodeados de livros e discos, à moda antiga”
Pois eu, meu caro Pedro, faço questão de continuar à moda antiga, no que toca aos livros e principalmente aos discos, contrariamente ao que os amigos e colegas do meu tempo, que abandonaram a hi-fi, ou simplesmente a substituíram por um mono bluetooth, onde ouvem não sei bem o quê em mp3. Boas leituras e audições.
Sintonia, meu caro. Faz muito bem. Tenciono ir dando nota aqui das minhas leituras.
Pois, é assim que vamos. Belo texto, Pedro.
Um dia de cada vez. Tem de ser assim, Teresa. Beijinho.
Belo texto, Pedro.
Desse momento de emergência, desse dia 25 de Novembro de 1975 partilho, se me permite, uma pequena “estória”.
Era eu um jovem estudante de Económicas (para fugir às siglas, que andam sempre a mudar) e encontrara ao fim da tarde, no Jardim da Estrela, um amigo e antigo colega de colégio que há muito não via. Que,logo depois da festa do reencontro, com todas as declarações de circunstância, aproveitou para me “cravar 100 paus”. Hoje meros 50 cêntimos, mas na altura uma boa semanada. Acabamos no cinema, no Londres, praticamente vazio, a ver o Tarzoon. À saída, já bem depois da meia-noite, depois mais de duas horas próximos daqueles símbolos caldenses animados, e longe da actualidade do país, depois de cada um sair para seu lado, de repente dei por mim sozinho na cidade estranha e completamente vazia. Imaginei então o que se poderia estar a passar e tratei de dar “corda aos sapatos” em direcção a casa, na Rua de S. Bento, mesmo ao lado da Amália. Isso mesmo: da Praça de Londres a S. Bento, a pé. Entre a uma e as duas da manhã, em pleno estado de sítio. A viagem acabou em bem, e nunca mais vi o meu amigo. Nem os 100 paus!
Eheh. Que bela história aqui trouxe. Ainda bem que a partilhou connosco. Momento único, irrepetível. E ao mesmo tempo, se virmos bem, tudo tão obviamente português.
Viva, Pedro. Não sei bem porquê – mas também não é a primeira vez – o meu comentário saiu anónimo, só agora reparei nisso.
Não é de anónimo nenhum, o comentário é mesmo meu. E a “estória” passou-se naturalmente comigo.
Valha a varanda que ainda dá para apanhar um sol na mona.
Hoje tentei ter a reunião diária sentado ao sol, mas alguém desrespeitou as ordens do Prof Pres Marcelfie e passou a manhã a desbastar sebes, numa chinfrineira infernal. Já não se pode trabalhar em sossego.
Entretanto ontem acompanhei a filhota no seu treino diário via uma cena qualquer de vídeo, juntamente com as colegas. Admitamos, isto da tecnologia ajuda e muito a superar a confinação (é agora o termo técnico? Enclausuramento? Demasiado?).
Ajuda, sim. Nós, os que vivemos o estado de sítio em Lisboa naquela época, não tínhamos nenhum destes instrumentos tecnológicos e deste vasto cardápio de lazer televisivo, telefónico e digital agora disponíveis.
Reclusão na era analógica era bem mais dura. Mas mais proveitosa para leituras, acrescento.
O Vasco Lourenço ainda está vivo, pelo menos segundo a Wikipédia.
Agradeço-lhe a chamada de atenção. E eu tenho a obrigação de saber isto, pois ainda não há muito o vi no estádio do Sporting, onde ambos temos lugares de época.
Já rectifiquei.
No Verão/1973 o então capitão Vasco Lourenço assinava-me as licenças de fim-de-semana no BRT (Batalhão de Reconhecimento de Transmissões) da Trafaria pelo que eu teria provavelmente tomado nota caso tivesse morrido.
Claro. Lapso meu. Ele está aí, já recomposto de um acidente que teve há uns meses. Leão é mesmo assim.
Sporting? só se for na Wikipedia
Santinho. Fizeste bem em espirrar para o antebraço, apesar da dor de cotovelo.
A propósito de cotovelos.
Está na hora de ressarcir o ‘Cotovelinhos’ Santos das multas que pagou por ter cumprimentado tão cordialmente várias vezes o João Pinto.
“sem aulas, entretíamo-nos com a leitura!” Tenho a ideia de que aqui deveria ser entretínhamo-nos. Não será?
Claro. Gralha corrigida, agradeço-lhe o reparo.
Pedro, acredite que gostava de ter escrito o seu post, que me parece dos melhores que o amigo escreveu.
Eu não estou confinado a cinquenta ou sessenta metros quadrado; a minha casa é grande e tenho jardim e quintal; além disso moro numa zona onde é possível dar grande passeatas sem ser incomodado por quem quer que seja, um paraíso, se quiser.
Interrogo-me como será a vida dentro de 15 dias para quem mora numa colmeia, sobretudo daqueles que não tem o salário garantido – a maioria de nós não somos funcionários públicos. Não ficarei admirado se começarem a surgir assaltos e não meras tentativas de burlas. Digo isto por que a fome é má conselheira e quem eventualmente sofrer desse mal tem muitas desculpas para fazer “asneiras”.
Por outro lado, quem pode garantir que os muitos idosos que vivem sós, assustados como devem estar e abandonados pela família, não venham a aparecer mortos passada a fase aguda da crise?
Tudo isto para lhe dar os parabéns por este seu post.
Muita saúde para si e para os seus.
São interrogações angustiantes, em muitos casos.
Aproveite bem, meu caro. É um privilégio estar longe desta cidade quase assombrada onde agora vivo.
Muito bom, Pedro, bem haja! Levou-me lá, direitinha a 1975 , em Belém, com o som dos tiros extinto depois de passar o susto, mas não o receio do que estaria para vir. Sem programas de TV, cozinháva-mos, jogáva-mos às cartas e ao monopólio e cantáva-mos, principalmente músicas de Natal, pensando no Natal tão próximo que poderia ou não chegar.
Correu bem em 1975. O “inimigo” era palpável, mas ávido e desorganizado. Foi travada a tempo e nunca mais teve força para voltar verdadeiramente a icomodar.
Espero que o mesmo aconteça no momento presente.
Boa quarentena para todos.
Memórias que regressam à superfície a propósito do que agora se passa, Maria Dulce.
Tudo de bom para si e os seus.
Que dois pontapés na gramática.
Será que daqui a 40 anos vamos estar a falar disto como um Acontecimento (um happening), ou este é o primeiro de muitos?
M. Night Shyamalan, és tu?!?
Ena ena, Pedro Correia; isso é que é uma narrativa romanesca, capaz de matar de inveja o Sparks, hem?!
Vamos lá ver se avinagro isto porque pelo desenvolvimento real e outro conjecturado, a coisa está mais para o praguejamento do que para o enternecimento.
Primeiro este hemisfério idolatra tanto a natureza como o outro. Se o amassem não o destruíam. Quem ama não fere. A menos que seja uma idolatria ao jeito do modernismo em que se ama muito a mulher. Idolatra-se! mas que nunca esteja doente porque senão o amor salta pela janela.
Depois para quem está enclausurado em casa, – maldito vírus, à situação menor que me reduziu – nada melhor para dissipar a ira do que ir fazer a cama e lavar a loiça do jantar que se fingiu não ver amontoada na cozinha, alicerçado na hipotética probabilidade de ser ela a lavá-la. Só que ela não é burra.
Lição aprendida, abram a mente a novos conhecimentos e tornem-se sábios no deleitoso desfrute de passar a roupa a ferro. Seguidamente surpreendam-se ao descobrirem em vós predicados que nunca sonharam ter, e libertem o chef adormecido. Vão ver, …oh surpresa inusitada! ” Esta tão bom, não sabia que cozinhavas tão bem. Hás-de fazê-lo mais vezes.”
Não responda e guarde para si a admiração de “tão sinceros elogios” à sua arte manifestados pela apresentação de um frango assado que era só carvão.
Depois, e sempre na senda do aprofundar de conhecimentos, peguem num aspirador, coloquem uma cadeira no lugar, peguem num pano e dêem-lhe uso e, sobretudo, atingirão a plenitude da sabedoria ao deslocarem para a cozinha a garrafa da cervejola vazia, que antes da sabedoria chegar ficava esquecida em cima da mesa.
Como se comprova, de todo o mal se tira proveito.
Ena, eis um sério candidato a ser destacado como comentário da semana.
Não senhor! Comentário da semana, se algum valor merece a minha opinião, é o do Costa.
Tomarei em devida nota a sua sugestão.
Tal como um virus mutante, cá temos novos tempos:
-coronavirus, já por muitos lados se chama o corno do virus
-construções religiosos a pagar promessas ex.Igreja da N.Sra. da Saúde nem vê-
-las ou programadas
-posições de fácil transmissão ex.à missionário excluídas e a dar lugar às
animalescas cavalitas ou à cansana
-as cotovelas passam a ser consideradas um cumprimento amistoso, sendo o
Paulinho Santos louvado e ressarcido da fama de violento
-temos um Governo competente
-o bracejante chega não sabe se é por opção haver polícias sem luvas ou
máscaras
Cuide da saúde: é o mais importante de tudo.
Este tom introspectivo com que nos brinda terá sido uma mistura de nostalgia com melancolia, provocados talvez pela cinzento ensolarado dessa bonita fotografia.
A natureza desolada, a geometria monolítica da cidade, e a esperança que o despertar da noite sempre traz com a Luz.
A despropósito, ou não, ao ver o nosso actual presidente tive um assomo de saudade da esfíngica figura do General Ramalho Eanes. Onde faltava a politica dos afectos, seja lá isso o que for, sobrava o estrito cumprimento do dever.
Bom dia do pai, ou dos pais, e dos filhos que como eu, também sendo pais, aproveitam para estreitar laços, por um lado, e asfixiar a solidão, por outro.

«Onde faltava a politica dos afectos, seja lá isso o que for, sobrava o estrito cumprimento do dever.»
Uma frase que sublinho e em que muito me revejo. Se há político português que admiro é António Ramalho Eanes.