Dia Internacional da Misoginia


Teresa Ribeiro,

Não, hoje não é o Dia Internacional da Sida, nem da Doença de Parkinson, hoje é o Dia Internacional da Misoginia, a doença mais antiga do planeta e que como tantas doenças crónicas tem direito a uma data no calendário da ONU. Nos jornais leio que se “comemora” este dia, mas não é verdade. Raramente os dias internacionais são dias comemorativos, pois se são assinalados desta forma é porque carecem da atenção da comunidade internacional, em regra pelos piores motivos. O Dia Internacional da Mulher – também é assim que lhe chamam – não constitui excepção.

Neste dia vou tomar conhecimento de estatísticas actualizadas sobre violência doméstica, mutilação genital feminina, tráfico de mulheres, pobreza e analfabetismo femininos, discriminação no trabalho, prostituição. Este exercício anual é importante, porque sempre se ganha alguma coisa em dar visibilidade a estes dramas, mas como é natural, deprime-me. Todos os anos se percebe que neste ponto a humanidade ainda não avançou nada. Que me perdoem as senhoras emancipadas que gostam de receber flores a 8 de Março, mas não acho graça nenhuma a este dia. Se me dão os parabéns por ser mulher fico sempre sem saber o que dizer, a perguntar-me como soaria absurdo dar os parabéns por ser homem ao homem que me dá os parabéns.

Há anos passava na televisão um anúncio a uns pensos higiénicos que me irritava sempre. Era por causa do slogan final em que uma parva em tom enfático se saía a dizer: “… porque gosto de ser mulher”. O spot incomodava-me, claro. Porque ao enaltecer a condição feminina afinal questionava o seu valor. Alguém se lembraria de pôr um homem, num anúncio de after shave, a dizer depois de escanhoado, “… porque gosto de ser homem”? Pois. Pareceria absurdo, ridículo até.

No dia em que for absurdo, ridículo até darem-me os parabéns e oferecerem-me flores a 8 de Março talvez me cure destes ataques de alergia que me assolam todos os anos no Dia Internacional da Misoginia.

11 comentários em “Dia Internacional da Misoginia”

  1. É um post que aplaudo. No passado muitas vezes dei os parabéns a mulheres, dei as flores, etc. Com o tempo cheguei à conclusão que é essencialmente uma hipocrisia. Ser-se mulher é apenas o resultado de estatísticas (cerca de 50 vírgula qualquer coisa por cento de possibilidades). Já o viver-se mulher é uma condição e, bastas vezes, um fardo.

    Há dias discutia um assunto com a minha mulher. Dizíamos nós que num casal haverá sempre alguma das partes que sacrifique algo na sua carreira para que a outra suceda em pleno. No caso das mulheres, isso significa estgnação na carreira, ou simplesmente a abdicação da mesma (na Europa Central, a “progressiva”, isso é corrente). Nos homens, simples “sacrifícios” como não mudar de cidade para perseguir aquele emprego de sonho e ficar com o outro, ali ao lado, apenas marginalmente menos bom, é algo louvado e que se vê como um sacrifício de magnitude incalculável. Nos casos em que tanto o homem como a mulher sacrificam um pouco da carreira pela família, o homem acaba sempre mais louvado.

    Isto para não falar nos casos mais mediáticos (ou que o deviam ser) que a Teresa descreve.

    Ser-se mulher é ser-se, de facto, diferente do homem. Isto não deveria ser castigado (misogenia) nem combatido (feminismo radical), antes abraçado. As mulheres são diferentes dos homens e por isso podem fazer coisas diferentes. Não devem ter que fazer o mesmo nem ser forçadas a fazer seja o que for. Devem receber simplesmente o mesmo respeito que qualquer outro ser humano. Infelizmente, num país tão mariano como Portugal, estes dias servem o propósito oposto.

    1. Pois, sempre dois pesos e duas medidas, João. Uma desigualdade que cansa, porque se perde no tempo. O respeito, que referiu no seu comentário, é crucial. Fácil invocá-lo, difícil manifestá-lo consequentemente entre colegas, entre casais, até entre mães e filhos. Sou uma privilegiada, vivo numa das sociedades mais avançadas do planeta, mas ainda assim não é preciso puxar da lupa para ver o quanto nesta matéria ainda precisamos de evoluir.

  2. Excelente texto, Teresa. Aplaudo.
    Digo o mesmo todos os anos: enquanto houver UM dia da mulher, significa que os outros 364 são dos homens. E parece-me que isto diz tudo, não?

  3. Concordo. A defesa dos direitos das mulheres deve ser diluída no todo que é a defesa dos direitos humanos, assim mesmo, sem género, raça, idade ou credo. Criar uma categoria específica ao género feminino, para além de sublinhar diferenças mais do que realçar a humanidade que nos une, insinua a necessidade de manter um certo comportamento paternalista para com as mulheres que me repugna profundamente.

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