
Nasce contigo, visceral, repugnante, perversa, permanece dormente nas entranhas como um gémeo parasita, pronta para sair, subir à garganta e transformar-te num monstro, numa gárgula aberrante e disforme que te corrompe, que te altera, que te faz vociferar dejectos incongruentes num tom estonteado e vil que faz tremer as paredes, que faz tremer as pessoas, que te agita de alto a baixo até sair por completo, projectada no ar com o efeito duma bomba avantajada, porque no fundo fez vítimas e os estragos são desmesurados e incontáveis, irreparáveis até.
Clímax de segundos e regressa ao antro, deixando-te esmagada, desfeita, só.
Não consegues varrer os cacos porque há coisas que, depois de ditas e feitas, não têm retorno e tu sabes, porque durante toda a tua vida te debateste com a besta. Desta vez levou-te a melhor e tu tens de aprender a viver com isso… mais uma vez.
(Imagem Google)

Sentir raiva será mau? Vamos suprimi-la? Haverá alguém que imagine ser feliz, sequer viver, reduzido à indiferença?
(á cautela, explicito que o que deve ser reprimida, sublimada, substituída ou suprimida é a acção ditada pela raiva)
Sentir raiva não ê mau, é sinal que estamos vivos e sentimos. Dar-lhe trela, isso sim, porque acaba por nos arrastar com ela. Depois da explosão, nem sempre há cacos para apanhar e tentar reconstruir o que se destruiu.
Saltou-lhe a tampa, já vi. E agora?
E agora nada. É meter a viola no saco e partir para outra. Mal seria se todos gostássemos do amarelo, o que seria das outras cores.
Todos fazemos o mesmo, dizemos o que queremos e o que não queremos e no fim ficamos frustrados não por dizer o que sentimos mas por dizer o que pensamos.
Em suma, a nossa raiva acaba por ser proporcional à nossa vulnerabilidade.
A raiva arde em fogo lento, consumindo devagar. Depois rebenta. E leva tudo atrás. Depois… Depois já não há remédio.