Dia de não-feriado


José Meireles Graça,

Ontem foi dia de não-feriado. Compreende-se: os feriados cívicos celebram datas marcantes e comemorar duas datas de dois anos seguidos, 1974 e 1975, seria demasia: naquela madrugada inteira e limpa, no dizer inspirado da poetisa Sophia, grande para os que assim a acham, ou estava uma grande e pouco épica nevoeirada ou brilhou o sol do unanimismo.

Brilhou o sol do unanimismo: cada um viu no 25 de Abril o fim de um regime que não deixava ninguém manifestar as profundidades de que era depositário, e acreditou que no seu lugar ficaria a liberdade, o leite, o mel, o regresso dos soldados, a Europa rica, a democracia, o socialismo, a saúde, a explosão da criatividade artística reprimida e o consumo de coca-cola.

Como não podiam ficar essas coisas todas em simultâneo, o unanimismo desfez-se: uns queriam o modelo do Peru, de Cuba, de Moscovo ou de Pequim, e outros o da Suécia, ou da Dinamarca, ou de Bona ou do ami Mitterrand. Ou seja, o 25 de Abril celebra a unidade poética e ilusória, assente em equívocos, dos quais o primeiro era a negação do motivo verdadeiro do golpe, a recusa da guerra colonial; e o 25 de Novembro o senso e a poupança ao inferno cheio de boas intenções.

Doutro modo: uma data refere-se à unidade; e a outra à divisão.

Divisão entre vencedores, que foi a gente imperfeita e confusa da barafunda democrática, e vencidos, que foram comunistas e primos de vária pinta – a malta cujos descendentes ideológicos, quando não são os próprios cheios de colesterol, se alojam hoje no PCP e no Bloco.

A ter que celebrar alguma (e eu não celebraria nenhuma, por razões que abaixo explico), o 25 do quatro é que é.

O quê, associamo-nos então à comunistada e à bloqueirice, no primeiro caso correndo o risco de contrair dementarite totalitária e no segundo acne mental?

Sim. Quem não tem muita confiança no seu sistema imunitário é que tem receio de contágios. E depois:

Aqui há uns anos o meu amigo Hélder Ferreira envolveu-se numa discussão em torno do interessante problema de saber se se pode ser amigo de comunistas. Ele (e eu também, embora não tivesse molhado a sopa) achava que sim, uma turba de outros reaccionários que não. Porque aquela gente, se pudesse, roubava a muitos de nós – os que não fossem trabalhadores por conta de outrem – o modo de vida, e porque em nome da nossa liberdade fazia o que podia para a substituir pela deles, na qual não cabem vozes dissonantes, e portanto não caberíamos nós. Donde, como se pode ser amigo de quem defende um estado de coisas que nos anula, e a muitos meteria na cadeia? Não são adversários, são inimigos.

Raio de problema. Que encontra solução na contradição inerente ao respeito pelas liberdades, das quais o melhor exemplo é o da de opinião: ou abrange quem diz coisas completamente opostas às nossas convicções ou não é liberdade. E também no facto de um amigo comunista o poder ser (amigo) por acreditar sinceramente que nós não correríamos qualquer risco sério no caso de vingar a sua deles distopia – já que juram por fantasias irrealizáveis não há razão para duvidar da boa-fé em acrescentar essa ao lote.

Celebramos então aquele momento em que julgávamos que não havia desfiladeiros, crateras e vulcões entre nós, e esquecemos o outro em que nos livramos do perigo de o 25 de Abril de 1974 desembocar, afinal, num 1917 moscovita?

Não é preciso esquecer nenhuma das datas. Mas como, dos três dês que não sei quem inventou retroactivamente para o 25 de Abril – democratizar, descolonizar e desenvolver – o primeiro foi conseguido apenas pelo 25 de Novembro, o segundo abriu feridas com as quais a História ainda não acertou contas e o terceiro empalidece em comparação com o Estado Novo (mesmo que a maioria das pessoas, por ignorância condicionada, assim não o entenda), talvez fosse um óptimo terreno de entendimento acabar com um feriado, e não o substituir pelo outro.

Precisamos de datas pela mesma razão que todos os países que não estão cansados de o ser as têm? Precisamos sim. Mas como estamos afogados em dívida e a trabalhar menos é que, certamente, não a vamos pagar, podíamos acabar com o feriado do 25 de Abril sem o substituir pelo 25 de Novembro.

E então, de feriados cívicos, nicles? Estamos servidos: ele há o 1º de Maio, que os comunistas julgam que é um dia deles mas se tornou um feriado mundial que celebra o trabalho, e o 10 de Junho, dedicado a Portugal por razões oscilantes. E há o 5 de Outubro, que comemora um regime celerado fundado no assassinato de um homem bom, mas está ungido pela tradição. A qual santifica as coisas, se durar tempo suficiente, mas bem poderia neste caso ser corrigida nos discursos.

Não para celebrar o regime republicano, que nunca o mereceu, mas o Tratado de Zamora, que teve lugar no mesmo dia, e tem a vantagem de ser uma data plausível para o nascimento do nosso a tantos títulos detestável país, mas que é o único em que todos – comunistas, bloquistas, pessoas normais – não somos  estrangeiros.

10 comentários em “Dia de não-feriado”

  1. Muitos parabéns e muito obrigada pelo seu texto. Tem toda a razão, mesmo toda, ao lembrar que este, para nós, é o único país em que não somos estrangeiros, embora nos possam fazer crer o contrário ,embora não deem valor ao que isto significa. Detestável em muitos aspectos, como diz, no fundo, é ainda “o ingénuo país de minha tia”, é ainda o lugar que Jacinto, estremunhado, descobriu “É Portugal? Cheira bem” e logo Zé Fernandes, indignado “, claro que cheira bem animal!” . Foi sempre, sempre, o que senti quando voltava a “casa”, sem ignorar tudo o que de detestável iria maldizer dias depois, neste meu país, admirável também, sob tantos aspectos. Temos culpas , todos temos culpa ao permitir que cenas deploráveis se tornem comportamentos habituais e toleráveis. Por isso, aqui deixo, à portuguesa, uma cunha discreta: por favor, faça tudo o que puder para que a sua Filha, a melhor deputada do Parlamento, não deixe de ser figura visível na vida política, exímia em afastar, e em não atrair os mais capazes.
    Agradeço-lhe , por fim, a referência ao crime enorme que foi a execução do rei D. Carlos e o covarde assassinato do seu Filho, perdas absolutamente irreparáveis, que ,até hoje, não foram devidamente assinaladas como página negra da nossa História, que são. Nem vi que houvesse quem exigisse pedidos de desculpa para este crime, nem para as vergonhas que se sucederam .Não sou monárquica, creio que o teria sido no tempo de D.Carlos. A propaganda foi fatal, o que parece quase sempre não é e só tarde de mais vemos a realidade. Então como agora
    Uma vez mais, muito obrigada.
    Margarida Palma

  2. Este texto, interessante mas pretensioso, é mais um a juntar aos que quase todos anos aparece sobre a questão do 25 de Novembro e tal e coisa.
    Há quem diga que no “golpe” do dia 25 e Abril estava tudo combinado e o que tramou tudo foi o pcp (falta esta hipótese no texto), depois arranjou-se esta “vitória” no 25 de Novembro para limpar a imagem. Mas verdadeiramente, o que aconteceu foi que as altas individualidades militares e políticas levaram uma “então, e não fizeram nada?!” sem resposta ao Movimento dos Capitães.
    Mas, além do derrube regime ditatorial, o grande e grave problema de treze anos de guerra foi o motivo principal do 25 de Abril de 1974. O 11 de Março, 25 de Abril das eleições e 25 de Novembro no ano 1975, assim como outras datas, foram etapas duma revolução devido ao Movimento dos Capitães no dia 25 de Abril de 1974 que ficará para a História.

    1. De Anónimo para Anónimo mas não diga a ninguém.
      O texto não me pareceu pretencioso por aí além mas o seu não o é menos.

      A única coisa mais ou menos acertada que disse é que estaria tudo “combinado” mas estragou tudo com a história do PCP ter “tramado tudo” para engrenar uma teoria da conspiração mais que rebuscada para o 25 de Novembro.
      Portanto ou não “viveu” aqueles tempos ou os viveu numa “bolha” qualquer ou está convenientemente “esquecido”.
      Deixe lá, acontece a muitos, é o que há mais por aí, especialmente entre as dezenas de milhar (aturei muitos) que a 26 de Abril de 1974 juravam pelas alminhas que tinham andado enganados até à antevéspera (não digo que seja o seu caso).

      1. Anónimo para anónimo
        Em 24 de Abril de 1974 só andava enganado quem queria, ou dizia que não queria saber.
        A questão do “estava tudo combinado, nem sequer tinham balas nos carregadores” é suscitada pelos que tinham levado um “então, vocês não fizeram nada?”, que acrescentavam
        a chatice ter aparecido o PCP.
        Mantenho, o 25 de Novembro foi um acontecimento de percurso, não muito diferente do que se passava nas Assembleias do MFA , com uma acção mais concreta (armada) contra os “esquerdistas desalinhados”, aproveitado pelos “direitistas alinhados” para propagandear a tal argumentação da chatice ter aparecido o PCP, que os mais envergonhados chegados do Brasil uns anos depois chamavam “trabalhistas” por causa das criancinhas.
        E ainda dá jeito agarrar a do “estava tudo combinado” para limpar a imagem e aproveitar a confusão.

  3. Já que estamos a comemorar os não feriados, porque não juntar aí mais uma data.
    O 31 de Dezembro ( de 1143 ) quando D. Afonso Henriques prometeu pagar quatro onças de ouro ao papa Lúcio II para deixar de depender do primo o imperador Afonso VII.
    Não sei se a resposta do papa agradou aos primos, mas penso que essa carta é que foi o primeiro passo jurídico para a independência de Portugal.

  4. Verificando as coisas que referiu “Como não podiam ficar essas coisas todas em simultâneo…”
    «
    – a liberdade: acabou a censura prévia, temos agora a censura das redes sociais, que não é a mesma coisa;
    – o leite antes havia menos leite nos supermercados e o leite que mediam a caneco não era tão bom como o de agora;
    – o mel: há muito mais variedade nos supermercados e muitos feitos em Portugal;
    – o regresso dos soldados: estavam uns 100.000 mobilizados em África, agora estão só uns 200 de cada vez e também já foram para a Ásia e a Europa, não estão obcecados com as ex-colónias
    – a Europa rica: temos a Europa rica, o que nos falta é o Portugal rico;
    – a democracia: o Joe Biden convidou Portugal para a cimeira: https://www.state.gov/participant-list-the-summit-for-democracy/ ;
    – o socialismo: bom, esta parte teve que ficar para mais tarde embora muita gente, talvez mesmo você, considere que já temos essa também;
    – a saúde: aqui também as opiniões se dividem mas pelo menos temos um Serviço Nacional da mesma;
    – a explosão da criatividade artística reprimida: se calhar explodiu e só ficou poeira;
    – e o consumo de coca-cola: aqui não há dúvida que passou a existir. Pela minha parte deixei de beber, no voo de saída de Portugal e também no estrangeiro dado que é fácil consumi-la em Portugal, onde também não a bebo salvo em muito raras ocasiões .
    »
    constatei que ficaram todas.

  5. Meireles Graça, só muito recentemente desafiado por Rentes de Carvalho, também da Oficina da Liberdade, é sempre agradável de ler e quase sempre merecedor do meu acordo. Hoje tenho pequenas divergências que serão naturais e inevitáveis.
    Sou incapaz de festejar o 25 de Abril porque, suponho que diferentemente de Meireles Graça, tenho uma fortíssima carga histórico-familiar ligada ao império. Antepassados e colaterais próximos governaram a Índia, Moçambique, Timor e Guiné, distritos de Moçambique, Angola e Cabo Verde, um que se distinguiu na luta contra os piratas do Mar da China, outro que comandou uma expedição punitiva contra a China, para vingar a morte de Ferreira do Amaral. Modernamente, ambos de raça mista, parentes que conheço pessoalmente foram, um ministro da economia e competitividade de Cabo Verde, outro ministro da defesa de S. Tomé e Príncipe. Na guerra civil que se seguiu à independência de Angola, sangue familiar correu e correu abundantemente de diferentes lados. A versão Salazarista de uma Nação intercontinental e pluriracial era uma fraude política mas a minha família era isso mesmo.
    Por isso não preciso que a História acerte contas. com a descolonização. Para mim são contas há muito fechadas.

    Ao 25 de Novembro – que vivi com a sensação de frustração e quase de traição – nem a frase Queiroziana de “A Relíquia”, o manto diáfano da fantasia, pode ser aplicada.
    Objectivamente foi um contra-fogo. Se não tivesse ocorrido, a guerra civil teria sido inevitável e a extrema esquerda varrida do panorama político por muito tempo.
    Abro um parêntesis para esclarecer que LIsboa, privada de comunicações que não para Sul, privada de electricidade e com sérios cortes no abastecimento de água, era um cenário que ao tempo me causava desconforto e hoje me faz duvidar se este desfecho, doentio e sem esperança, não pudesse, mesmo assim, ter sido o menos horrível. É que, ao contrário de uma personagem cujo maior mérito é ter tido pares ainda piores do que ele, eu errei muitas vezes na vida e sempre vivi e morrerei com dúvidas. Fecho de parêntesis.

    O 25 de Novembro teve três grandes actores políticos, Melo Antunes, Ramalho Eanes e Mário Soares. Foram os três vencedores e os três conseguiram os seus objetivos que nem eram coincidentes mas nenhum ficou na história com a verdade que lhe cabia. Mário Soares porque vestiu e posou com roupas que lhe eram mais favoráveis. Ramalho Eanes porque nunca foi objecto de uma análise de motivações. Melo Antunes, de muito longe o maior vencedor, o que desenhou o tabuleiro “gramsciano” em que hoje vivemos, obviamente porque o seu objectivo, a cultura, era incompatível com holofotes. A sua dimensão, nem sempre a mais correcta interpretação, apenas foi reconhecida no estrangeiro. O semanário “The Economist” tinha uma secção de obituário que ocupava uma página – imenso – com a crónica do falecido considerado de mais importância. Melo Antunes foi o primeiro e, por muito longo tempo, o único português no obituário do Economist.

    1. Francisco Almeida, muito obrigado pela sua comparação, que estou certo, sinceramente, não merecer: Rentes de Carvalho é um escritor que só não é mais conhecido porque o meio literato é esmagadoramente de esquerda e por isso guarda silêncio. Com o tempo, ganhará em notoriedade, a qual já é considerável. Já eu fico contente por saber que há quem aprecie as minhas larachas (se não houvesse, não escrevia) mas um mês depois de fechar os olhos só, para ser lembrado, poderia contar com os credores, se morresse com calotes. Quanto ao resto, com o acertar de contas da História o que quis dizer é que a descolonização, ou abandono, precisa de tempo para se poder olhar com o mesmo desprendimento com que olhamos para outros momentos mais antigos, igualmente marcantes do nosso destino colectivo. Nisso, aliás, o seu testemunho tem muito mais relevo do que o meu, que nunca tive nenhuma proximidade com nenhuma das antigas colónias. Obrigado mais uma vez.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *