Noutros tempos, o Dia de Finados, 2 de Novembro, servia para que cada um fizesse a sua romaria pessoal aos cemitérios, mas com a extinção do feriado desse dia reservou-se o dever para o anterior, de Todos os Santos, que durante anos recentes também perdeu a dignidade feriadal. Ainda assim, e mesmo com o recuo do gesto de revisitar a memória dos que já morreram, para mais ensombrado pelo mais descontraído e mais carnavalesco Halloween, uma coisa vinda do imaginário celta/new age das Américas que pouco atingiu a minha geração, grande número de pessoas continua a fazê- lo. Outros não o fazem, por mudança de hábitos, desconhecimento, pela pouca importância que dão ao assunto, ou porque o medo da morte simplesmente os incomoda, uma coisa muito frequente nestes dias de intenso materialismo e de fuga ao natural fim da vida (embora paradoxalmente haja um certo gosto pelo macabro e pelo mórbido). Mas outros continuarão sempre a fazê-lo. É bom que este hábito se mantenha, pela memória, pelo respeito e saudade dos que nos deixaram, e porque afinal nenhum de nós vai ficar cá para sempre. E os cemitérios não têm necessariamente de ser locais de morbidez, como os ultra-românticos tanto gostavam; podem muito bem representar cenários de reflexão, de silêncio e de paz, coisas tão necessárias e terapêuticas à mente humana. Pela minha parte, e porque tanto um como o outro dia me tocam por fortíssimas razões pessoais e familiares (uma delas intrinsecamente relacionada com a própria data), não deixarei nunca de os recordar e celebrar.
Dia de Finados e de Todos os Santos
João Pedro Pimenta,

“Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza:
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro!…”
Oxalá não morra num feriado, nem num qualquer período de férias. Não gosto de desagradar.
Muito bem. E eu de facto acho que a maioria dos feriados religiosos católicos deveria ser eliminada, mas certamente não o de 1 de novembro, que tem um grande significado prático para muitos portugueses, incluindo não-católicos.
Dia de Finados
devia ser dedicado ao sector produtivo do rectângulo dirigido por zombies
principalmente às vítimas dos fogos
sobrevivem apesar do desgoverno que continua a aumentar a divida
Concordo em pleno com o que afirma. O respeito pelos mortos é ancestral. Se o possuímos, morre connosco .
Respeito outras opiniões, naturalmente.
Pela minha parte é exactamente como escreve. Memória, respeito, saudade.
O que outros mostraram pelo exemplo, mesmo quando eventualmente o exemplo tenha sido infeliz. O que me ensinaram, o facultar ferramentas para a vida.
O silêncio eloquente, em frente a um jazigo, na Beira-Baixa, olhando outros e outras campas.
António Cabral