Miss Pearls lança-me este desafio, a que respondo com gosto. Até porque detesto a pose snob e enjoada de alguns bloguistas que odeiam ser maçados com inquéritos deste género lá do alto das suas níveas torres de marfim.
Aqui vai:
1. Existe um livro que relerias várias vezes?
Há vários. O Aleph, de Borges. O Processo, de Kafka. O Estrangeiro, de Camus. Já reli estes e outros.
2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
O Livro Verde, do Kadhafi.
3. Se escolhesses um livro para ler no resto da tua vida, qual seria?
Naturalmente, o Livro do Desassossego.
4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
By-Line, que reúne os textos jornalísticos de Hemingway.
5. Que livro leste cuja “cena final” jamais conseguiste esquecer?
Os Maias, quando Carlos e João da Ega concluem que “não vale a pena correr para nada”. Tão português e tão actual que até dói.
6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Os Cinco, os Sete. O Tintim. Blake & Mortimer. Buddy Longway. Ivanhoe, do Walter Scott. As biografias de ‘heróis nacionais’ escritas por Adolfo Simões Müller. As histórias da Dona Redonda, de Virgínia de Castro Almeida (alguém ainda se lembrará dela?). Os Três Mosqueteiros, Robinson Crusoe. Depois passei a devorar policiais: até os do A. A. Fair marcharam. Sem esquecer os contos e as novelas do Jack London, a que regresso ainda hoje com o deslumbramento de sempre. E o Verne, claro: O Farol do Cabo do Mundo, A Mulher do Capitão Branican, O Náufrago do Cynthia. Só de escrever estes títulos sinto vontade de partir novamente de aventura em aventura. Da Viagem ao Centro da Terra às Vinte Mil Léguas Submarinas.
7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
O Fim da História e o Último Homem, do Fukuyama: maçudo, inócuo, rebarbativo. A meio ficou A Caverna (Saramago). E não passei das primeiras doze páginas de Rumor Branco (Almeida Faria). Nem das primeiras quatro páginas de Quartos Imperiais, de Brest Easton Ellis.
8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Debaixo do Vulcão (Malcolm Lowry) – o livro da minha vida. O Fim da Aventura (Graham Greene). O Zero e o Infinito (Arthur Koestler). Memórias de Adriano (Marguerite Yourcenar). Adeus às Armas (Ernest Hemingway). A Condição Humana (André Malraux). Moby Dick (Herman Melville). O Retrato de Dorian Gray (Oscar Wilde). O Pavilhão dos Cancerosos (Alexandre Soljenitsine), 1984 (George Orwell). Os Nus e os Mortos (Norman Mailer). Até à Eternidade (James Jones). O Céu que nos Protege (Paul Bowles). Não Matem a Cotovia (Harper Lee). As Vinhas da Ira (John Steinbeck – para quando uma boa tradução em português desta obra-prima da literatura universal?)
9. Que livro estás a ler?
Nestas férias em Cabanas leio um romance divertidíssimo: Viagens com a Minha Tia, de Greene. Um sobrinho chato e sedentário é arrastado para vários países pela tia, uma velha gaiteira em tudo o oposto dele. Um livrinho que comprei há semanas, por quatro euros, na fascinante Livraria Galileu, em Cascais – “um relicário de livros antigos”, como bem lhe chama a Anamar.
10. Indica dez amigos para responderem a este inquérito.
Dez amigos blogosféricos: a Eugénia de Vasconcellos, o Samuel Filipe, a Helena Ferro de Gouveia, o Rui Bebiano, a Marta Costa Reis, o Luís Serpa, a Ivone Costa, o Rui Vasco Neto, a Marisa e o Pedro Jordão.

Caríssimo,
O meu melhor programa de ferias são 15 dias na minha Praia, na outra ponta dessa baía, com uma mala de livros.
A sua Literatura infantil infantil será comum á nossa geração, creio, falarei por mim claro. Alguma passou precisamente por essa Praia.
E o seu comentário do Eça já me doí as uns anos, confesso. Quiçá também apanágio da geração.
Aproveite bem, alheei-se da capital da fina flor do entulho e descanse(m).
Forte abraço a Norte,
Também vim de mala com livros, como é costume, meu caro ‘Desconhecido’. Contemplar a Ria Formosa é uma das melhores formas de lavar a alma.
O Eça não passa de moda. É a nossa sina.
Um grande abraço, com votos de boas férias.
Meu caro,
A minha Praia é a Este não a Oeste. E infelizmente ainda estou aqui por cima na Avenida, estive ai na semana dos feriados e só devo retornar em Setembro.
Alias amanhã vou almoçar com um quadro do jornal, meu amigo de outros tempos e idênticas andanças.
Forte abraço,
Bom almoço, meu caro. Quanto aos votos de boas férias, nunca são em excesso – venham elas em Junho ou só em Setembro.
Abraço.
Estou a corrigir provas de exame, mas amanhã faço intervalo para responder à corrente, caríssimo Pedro em férias. Já agora, o link sob meu nome está trocado. Já fui um dos ponteiros, mas já não sou.
Continuação de bom descanso.
Claro, Ivone. Correcção já feita. Obrigado.
Coincidência, também gosto muito desse final de Os Maias, mas porque o Carlos e o Ega entram em contradição. Dizem a frase que tu citaste e, acto contínuo, desatam a correr para apanhar uma tipóia que ia a passar. Essa contradição é que torna esse final inesquecível.
Tipicamente português, esse diálogo? Sim. Mas também a inconsequência que lhe está subjacente. Penso que o português se lamenta para se aliviar. É um desabafo, pronto. Mas na hora da verdade vai à luta.
O final é simbólico – muito simbólico – de uma certa maneira de ser portuguesa. Por isso o destaquei aqui. Até pela sua ambiguidade. Outro final que me impressiona sempre é o do «1984». Mais próximo de muita realidade contemporânea do que possamos pensar e talvez até do que Orwell pensou em 1948 enquanto escrevia o romance.
Teresa, tem um desafio lá no meu blogue. O responsável remoto é o Pedro Correia.
Já li as respostas, Ivone. Muito bem. Anotei várias sintonias. ‘Mau Tempo no Canal’, desde logo – para mim o melhor romance português do século XX. E ‘Cântico Final’. E o Torga contista, não o romancista.
Obrigado pelo desafio. Por estes dias estou um bocado apertado, mas mais à frente não deixarei de corresponder. Abraço.
Muito bem, Rui. Abraço.
pedro, caríssimo,
cá estou eu a gritar ‘presente’ à tua chamada, como não podia deixar de ser. Como saberás, os teus convites são por norma irrecusáveis e este não foge à regra, porque havia de fugir? Tentarei assim ter as respostas prontas ainda hoje, embora o dia esteja meio complicado por esta altura. E não posso (nem quero) deixar de te dizer que vou secando de inveja nesta Lisboa escaldante, enquanto tu te banhas (as banhas?) nas àguinhas cálidas do nosso Algarve de céu azul, num estado de graça que se adivinha sem esforço e onde espero não faltem os amores, já que as cabanas estão pelos vistos garantidas…
abraço-te, caríssimo. E boas, excelentes vacances é o que eu te desejo muito sinceramente.
rvn
Estão a ser excelentes, de facto, caro Rui. Vou ler-te com todo o gosto.
Um grande abraço.
Olá Pedro,
obrigada por fazer do Cemitério um elo desta corrente – ela já lá tinha passado, e com grande sucesso entre a mortandade que respondeu em bloco, diga-se, mas é um sempre um gosto que nos incluam.
Um abraço
Olá, Eugénia. O importante é que a corrente passe. E que os elos perdurem.
Um abraço deste seu admirador.
Como sempre é um prazer responder a estes desafios do Pedro Correia. Devo confessar que Jorge Luis Borges é o meu grande grande calcanhar de Aquiles…
Borges estranha-se, depois entranha-se.
Pedro,
quando chegar de Maputo respondo com todo o gosto.
Kanimambo pelo desafio.
O gosto é todo meu, Helena. Ficarei atento às respostas. Mera curiosidade.
Pedro,
Muito obrigada pelo convite!
Acabei agora de responder. 🙂
Votos de boas férias!
Beijo.
Obrigado, Marisa. Beijo.
meu filho, snob é responder à pergunta e mostrar o quão culto é. E fingir que acredita que os outros se interessam mesmo pelo que está a ler.
Toquei-lhe nalgum ponto sensível, Madame?
Já está respondido. Doeu , mas já está : )
Muito bem, Helena. Só não lhe respondi porque estou sem ‘mail’. Situação a resolver dentro de dias.