José Álvarez Junco é decano dos historiadores espanhóis e autor de Dioses Útiles, uma genealogia intelectual brilhante das nações e dos nacionalismos na Europa. Por mero acaso, mas muito a propósito do julgamento que hoje se iniciou em Madrid, cruzei-me com um ensaio por ele publicado no El País, em Outubro do ano passado. O texto é de antologia e o último parágrafo a melhor síntese que encontrei sobre o “problema catalão”:
“A História um dia julgará as elites nacionalistas. Culpá-los-á, creio, pela grave deterioração da cultura catalã, outrora cosmopolita e agora ensimesmada, e pela divisão da sociedade, anteriormente satisfeita com o bilinguismo e a dupla identidade. Irá culpá-los pela criação um Estado na sua pior versão possível: decidido a impor a homogeneidade cultural, de acordo com seu modelo preconcebido de nação e, portanto, a reduzir a liberdade e o pluralismo da sociedade que governa.“

A História um dia julgará as elites nacionalistas
Falta acrescentar no final desta frase a palavra “catalãs”. J.A. Junco não se refere às elites nacionalistas espanholas, das quais ele próprio faz, aparentemente, parte.
Pois acontece que não faz parte das elites nacionalistas espanholas. Bastava ler o artigo para perceber. Mais uma conclusão precipitada com potencial para “Lavourada da Semana”. Mas, pelo que vou lendo, o comentador tem outros comentários melhor colocados na ‘pole position’.
A História um dia julgará as elites nacionalistas
… e, enquanto a História não as julgar, o tribunal madrileno tratará de o fazer, para ir adiantando serviço.
São julgamentos diferentes no alcance e na natureza, como é fácil de entender. Havendo vontade, claro.
Falar em nome da História é fácil. Como já cá não estaremos quando se souber se temos razão, e a História não vem ao presente queixar-se de uso abusivo do seu nome, dá sempre certo.
Experimentemos:
A História julgará os que tentaram coartar a liberdade de um povo, mantendo-os ligados contra vontade a uma Espanha imperial sem rumo.
A História julgará os que querem impor o bilinguismo a quem fala outra língua.
A História dirá que os problemas nas pernas do Sr. Junker e o medo de perder posições nos seus próprios países levou a UE a fazer campanha por um assunto interno de um país.
Não creio que se tenha falado em nome da História, mas tão somente manifestado uma opinião – autorizada e fundamentada como poucas.
Não há liberdades cerceadas por motivos políticos, apenas criminais (o que, convenhamos, é um bom princípio).
Historicamente, o bilinguismo não foi imposto e, enquanto solução política, garante as vontades e desejos de uns e de outros.
Falar de “Espanha imperial” em 2019 é um delírio ao qual, por definição, é impossível responder com base na razão.
Quanto às pernas do Sr. Junker não me pronúncio, jo. Não as conheço, mas respeito de forma sincera todo e qualquer tipo de gosto.
Historicamente, o bilinguismo não foi imposto
A língua oficial e única da Justiça espanhola é o castelhano. Os réus não têm o direito de se defender na sua língua materna se esta não fôr o castelhano.
Não há liberdades cerceadas por motivos políticos, apenas criminais
Os motivos criminais podem esconder motivos políticos. No tempo de Estaline as pessoas eram criminalmente julgadas por “atividades anti-soviéticas”. As liberdades dessas pessoas eram, evidentemente, cerceadas por motivos puramente criminais.
Vá às universidades catalãs com o castelhano e tente perceber as aulas. Você talvez tenha sorte (o catalão não é especialmente difícil de compreender para nós) mas para quem venha de outras línguas e tenha aprendido o castelhano, pode ser um choque.
Não me parece ser muito imposto o castelhano. Especialmente quando menos de 50% da população da região identifica a língua como “materna”:
https://www.idescat.cat/pub/?id=aec&n=803&lang=es
Se um suíço do Aargau (Suíça alemã) fôr a uma universidade no Ticino (Suíça italiana), não entenderá as aulas.
Se um indiano de Chennai (falantes de língua tamil) fôr à Universidade de Calcutá (falantes de bengali), não entenderá as aulas.
Em Montréal há universidades de língua francesa (Université de Montréal) e outras de língua inglesa (McGill University). As pessoas que não falem uma língua vão para a Universidade da outra língua.
Se criminalizarmos atividades políticas podemos dizer que temos somente presos comuns. Está no livro de estilo de todos os pretendentes a ditadorezinhos, como o nosso Botas sabia.
A referência à Espanha Imperial era só para combinar com a pomposidade do “julgamento da História”. Vejo que compreende que a expressão serve como ajuda para validar qualquer disparate.
Também só conheço as pernas do sr. Junker da televisão, mas que ele dança bem o Can-Can, dança. O resto da frase referia-se ao espantosamente democrático argumento que já vi repetido várias vezes a propósito da UE: “não se pode discutir a independência da Catalunha senão há outros que também querem.
Se criminalizarmos atividades políticas podemos dizer que temos somente presos comuns.
Exatamente.
Se em Portugal alguém fizer um partido que defenda (explicitamente) a independência da Madeira, é posto na prisão por violar a Constituição. É um preso comum, não político.
Se em Espanha alguém declarar a independência da Catalunha, é posto na prisão por violar a Constituição. É um preso comum, não político.
Na União Soviética milhões de pessoas desenvolveram atividades anti-soviéticas, que eram proibidas por lei. Foram todas postas na prisão, ocasionalmente executadas. Eram prisioneiros comuns, não políticos.
Prisioneiros políticos? Náaa! Isso não existe em sítio nenhum.
Por que será que me parece que este Senhor está para a Catalunha como os papas estão para o celibato – velhos demais para mudar?!
João de Brito
A ” criação um Estado na sua pior versão possível: decidido a impor a homogeneidade cultural, de acordo com seu modelo preconcebido de nação e, portanto, a reduzir a liberdade e o pluralismo da sociedade que governa.”
Na verdade este texto aplica-se à criação do próprio Estado espanhol, bem assim como a muitos outros.
Se não fose o desastre que já é esta dita “União Europeia” impunha o alemão como língua única. Acreditem.
Importa perguntar-lhe, qual alemão se falaria? O Padrão ou os vários dialetos do baixo saxão? Qual?
De preferência o do sujeito de bigode,