Deus, trono e família


Pedro Correia,

 

Kim Il-sung, tendo por cognome ‘o Grande Líder’ – à semelhança dos monarcas medievais – governou a Coreia do Norte de 1948 até à sua morte, em 1994. O culto da personalidade que lhe era tributado assemelhava-se ao do deus Rá no antigo Egipto: de tal modo que ainda hoje há penalizações a quem, por engano, pise a sombra dos mausoléus que lhe foram erguidos, em jeito de altares. E nunca chegou a ser formalmente substituído como chefe do Estado: oficialmente, é-lhe consagrado o título de “Presidente eterno”.

(Quem disse que o comunismo é incompatível com a religião e os comunistas não crêem na eternidade?)

Sucedeu-lhe no trono vermelho o filho Kim Jong-il – tendo por cognome ‘o Querido Líder’. E agora este mesmo dirigente supremo do comunismo norte-coreano prepara como sucessor o filho mais novo, que se chama Kim Jong-un. O petiz ainda não recebeu cognome mas acaba de ser distinguido – aos 27 ou 28 anos, a idade exacta dele parece constituir segredo de estado – com a patente de general e já tem assento no Comité Central, junto dos jerónimos de sousa e dos franciscos lopes lá do sítio.

(Quem disse que o comunismo é incompatível com a monarquia?)

Na corte estalinista de Pyongyang, tão admirada nas páginas do Avante!, nos votos parlamentares dos comunistas portugueses e nas resoluções de recentes congressos do PCP, outros familiares do ditador acabam de receber prebendas: Kim Kyong Hu, sua irmã, foi agora igualmente promovida ao posto de general. E o marido desta, cunhado do filho do Rei-Sol, Jang Song Thaeck, ascendeu ao cargo de vice-presidente da Comissão de Defesa Nacional.

(Quem disse que o comunismo é incompatível com a solidez da instituição familiar?)

9 comentários em “Deus, trono e família”

  1. Em 1994, pela morte do “eterno” Kim Il-sung, Lembro-me de ter escrito que o comunismo dinástico da Coreia do Norte é um regime que nunca deve ser extinto. Pelo contrário: deve ser conservado, a bem da Humanidade. Conservado, coberto com uma redoma de vidro e rodeado por uma bancada à maneira. Para que os homens, sempre que queiram, possam ir ver o que devem repudiar. Para todo o sempre.

    Aquilo é que é uma república e peras. Comunista, pois então. E certamente democrática, mas isso o líder parlamentar do PCP é que sabe.

  2. Já tinha lido no Ponto Final.
    Está bestial, Pedro!!
    Entretanto, o filho que foi desterrado para Macau (quem dera a muita gente um “degredo” de meio milhão de dólares por ano, vivenda de luxo, apartamentos de luxo, duas amantes,…) continua a passear-se aqui com toda a pompa.
    E todo o luxo.
    Quem disse que o comunismo era incompatível com sapatos Ferragamo, roupas Ralph Lauren, refeições nos melhores restaurantes dos melhores hotéis?

  3. Alguém tem dúvidas que a Coreia do Norte nao é uma democracia? Cerca de 10% dos votantes portugueses não as têm (provavelmente não têm coragem é de verbalizá-las, como um deles teve)! Diz-se, em democracia,que há que respeitar os direitos das minorias. A Coreia do Norte, como minoria no mundo actual, tem de ser respeitada, por exemplo como memória do tempo num qualquer museu de arqueologia vivo (só lamento quem lá vive como figurante…)

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