O Cristo Amarelo, de Paul Gauguin (1889)
«Jesus chorou.»
João, 11-35 (o versículo mais curto da Bíblia)
A mensagem arrebatadora do Evangelho – e aquela que resume toda a essência do cristianismo – é a de um Deus que assume a plenitude da condição humana. Com os seus luminosos momentos de alegria, os seus lampejos de júbilo, as suas inevitáveis dores, a sua irrenunciável agonia. Como se a missão do criador ficasse incompleta sem esta experiência radical de abraçar por inteiro o ser débil, indeciso e angustiado que o barro divino moldou.
Até ao fim dos séculos, Jesus será inseparável da circunstância deste percurso terreno em que voluntariamente se irmana ao mais comum dos homens. Nasce pobre, numa gruta. Enaltece os humildes. Elege simples trabalhadores como discípulos. Rejeita sem vacilar o ilusório fulgor dos bens materiais. Perdoa os pecadores: «Eu não vim para condenar o mundo, mas para o salvar.» (João, 12-47). Enfrenta os fariseus com palavras tão actuais na manhã de hoje como há dois mil anos: «Vós, os fariseus, limpais o exterior do copo e do prato, mas o vosso interior está cheio de rapina e de maldade.» (Lucas, 11-39). E não hesita em dar a mais humana das interpretações à pétrea Lei de Moisés: «O sábado foi feito por causa do homem e não o homem por causa do sábado.» (Marcos, 2-27).
Condenado sem apelo nem recurso, renegado pelos seus, vilipendiado pela multidão que aclama Barrabás, confrontado perante a prepotência de Caifás e a cobardia moral de Pilatos, crucificado entre dois salteadores como um delinquente pelo crime de blasfémia. Deus feito homem num mundo de homens que sonham ser deuses.
Pouco antes confessara aos discípulos em Getsemani que sentia «uma tristeza de morte». E ali mesmo implora numa prece que poderia brotar da voz interior de qualquer de nós: «Pai, tudo Te é possível, afasta de Mim este cálice!» (Marcos, 14-36).
Um cálice que, no entanto, beberá até ao fim. Imerso na condição humana da gruta à cruz.

![Gauguin_Il_Cristo_giallo[1].jpg Gauguin_Il_Cristo_giallo[1].jpg](http://1.fotos.web.sapo.io/i/B2b142201/18205719_VoYwz.jpeg)
Belíssimo texto, Pedro!
Muito obrigado, Isabel.
“Como são insondáveis os seus julgamentos, e impenetráveis os seus caminhos!”
e neste post, como diria Salieri sobre Mozart, “God was singing through this little man to all the world”
Cada um de nós é também a sua circunstância, MM. E por vezes as circunstâncias levam-nos a fazer nossas aquelas palavras tão vibrantes do timoneiro descrito por Pessoa: «Aqui ao leme sou mais do que eu.»
A frase atribuída a Salieri – e que Mozart tanto mereceu – é outra forma de dizer tudo isto.
Tudo isto que relatam as escrituras, está tão actual como há 2015 anos. Cristo esteve sempre ao lado dos humildes, aqueles que ainda hoje são olhados com desdém, pelos superiores, foi ultrajado por aqueles que se achavam superiores a tudo e a todos, tal como hoje acontece com os grandes em relação aos menores e foi enganado pelos cobardes que se diziam seus amigos. Tudo isto, se passou há 2015 anos, mas por ironia ou não, o homem não aprendeu nada. Continua soberbo, egoísta, sempre pronto a apontar o dedo, cobarde, destruidor e sempre pronto a castigar o outro em benefício próprio.
Tem razão no essencial, Rui. De qualquer modo, penso que estaríamos muito pior sem a figura exemplar de Jesus – encontremos nela a inspiração que encontrarmos, no plano divino ou meramente humano.
Pedro
Este teu texto comoveu-me profundamente, porque encerra toda a História da Humanidade. É belíssimo.
Bem gostaria de ter tido a arte e o engenho de o ter escrito. Como não tive e porque o que eu escrevesse depois, seria no mínimo medíocre, ousei rouba-lo e da-lo a conhecer no meu estaminé.
Obrigada!
Eu é que uma vez mais agradeço as tuas palavras sempre tão generosas e fraternas, Helena. Estes textos só fazem verdadeiro sentido se forem partilhados. E muito me alegra que o tenhas feito.
Estamos numa Sexta-feira Santa deveras inspiradora. “Da gruta à cruz” resume também o pensamento e a arte orientais, onde o Menino de Belém é representado envolto em panos como se de uma múmia se tratasse. E, num Vilancete português do séc. XVI, canta-se a contemplação do Presépio desta forma: “Ay mi Diós, que causa ha sido que sufrais frio e dolor?… […] “Ay mi Señor que vos veo vuestra sangre derramar…” Por isso, também no Calvário fazia falta Maria.
Agradeço-lhe a sábia achega, JAB. Vem muito a propósito – desta quadra e deste dia em especial.
eu, se estivesse em frente d’Ele diria:
“És a nossa fé.”
Vim à procura do seu belíssimo texto, Pedro.
Encontrei-o, como sempre, ano após ano.
Extrordinário!
Páscoa que é Páscoa, tem de ser vivida ao sabor de um texto seu, lido, interiorizado, relida cada frase, comovida com o encanto das suas palavras e a reflexão que nos impõe.
É tempo de reflexão sobre a vida, num plano muito superior, esquecendo todos quantos nada aprenderam com a Sua cruz, mas enternecendo-me com tudo o que Jesus fez com Amor e por Amor.
E sentindo-me tão pequenina…
Como dizia o Principezinho, o essencial é invisível aos nossos olhos. Só conseguimos ver bem com o coração.
Muito grato pelas suas palavras, Alexandra. Como sempre.