Despedimento colectivo


escafandro,

É a pessoa que tratou das minudências de um despedimento colectivo. No final do processo viu-se incluída no grupo de despedidos. Ficou surpreendida. Não devia. Qualquer empresa de média dimensão (nas pequenas nem se conhece o conceito de gestão de recursos humanos enquanto nas grandes o ambiente está de tal modo impessoal que ninguém conhece realmente ninguém) tem interesse em evitar que o rosto de um despedimento colectivo permaneça nos quadros. Trata-se de um elemento em quem os restantes trabalhadores jamais voltarão a confiar. Despedi-lo permite aos verdadeiros responsáveis arranjar alguém para quem medo e raiva podem ser canalizados e marcar um ponto de viragem na empresa. É como se dissessem aos que ficam que também acharam mal o que se passou e garantissem que não voltará a acontecer. E quem fica esforça-se por acreditar porque precisamos sempre de acreditar em alguma coisa, por muito ilógica que seja.

 

Ingenuidade excessiva é estupidez e eu tenho dificuldade em sentir empatia por esta pessoa. Especialmente quando sei que tratou do assunto com um entusiasmo raiando a insensibilidade. Acreditando genuinamente estar a fazer o melhor para a empresa. Talvez estivesse. Tal como quem a despediu.

8 comentários em “Despedimento colectivo”

    1. Pedro: não conheço suficientemente os pormenores para saber se o despedimento era indispensável. Assumindo que sim, alguém tinha de tratar dele. Mas não é coisa para entusiasmos ou excesso de zelo. Nem para ingenuidades.

      1. Meu caro, a pessoa a que te referes faz-me lembrar a personagem principal do romance ‘Nas Nuvens’ (‘Up in the Air’), de Walter Kirn, muito bem adaptado ao cinema por Jason Reitman em 2009. Refiro-me a Ryan Bingham – interpretado na tela por George Clooney. Era também assim: especialista em despedir os outros. Até que um dia foi ele o despedido. E os argumentos que invocava com tão aparente convicção para os outros acabaram por não lhe servir a ele.
        A vida real imita tantas vezes a ficção…

        1. Não li o livro mas gostei do filme. Apesar de tudo, acho que esta pessoa não era tão fria à partida como Bingham. Até acho que o entusiasmo pode não ter passado de uma espécie de mecanismo de defesa, uma forma de evitar pensar aprofundadamente no assunto – e, também, de mostrar ser fiel e indispensável à empresa. Mas há coisas em que não se pode mostrar insensibilidade. Até porque a própria empresa terá então ainda mais interesse em se livrar deste elemento em que nenhum dos trabalhadores voltará a confiar.

          E claro que as coisas são sempre diferentes quando somos nós os atingidos. Foi a “insensibilidade” da empresa que magoou verdadeiramente esta pessoa.

  1. O despedimento, quer o colectivo, quer o individual, parece estar a ser uma moda.
    Admito (imaginação minha o que não dá grande amplitude ao assunto) um diálogo do tipo:
    -Então quantos despediste hoje?
    -Nenhum!
    -Nenhum? Mas tu estás a gerir uma empresa ou um asilo?

    Cumprimentos!

    1. Acredito que haja anedotas, Adérito. E há casos de pessoas que começam a gostar do poder de despedir (o ser humano tende a viciar-se em poder, qualquer que ele seja). Mas espero que, como na maioria dos assuntos incómodos, as anedotas funcionem mais como mecanismos de defesa, um modo de retirar peso aos assuntos, do que como expressão de opiniões genuínas.

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