Não tenho, não creio alguma vez ter tido (isto da memória é tramado) simpatia por Sócrates. Sempre tive por ele, no entanto, menos antipatia que por Passos Coelho ou a bandilha que está agora no governo (por oposição à que lá esteve). Sou, nesse aspecto, uma daquelas pessoas que tem pouca confiança na classe política: não por pensar que é necessariamente um bando de corruptos, mas por me parecerem cada vez mais um bando de medíocres.
Em relação à detenção, confesso que tenho menos confiança no poder judicial do que aquele que deveria ser demonstrado politicamente. O poder judicial tem demasiadas ligações à política e está excessivamente cheio de boys que devem as suas posições ao PS ou PSD. É o normal: um partido está no poder e vai enchendo as estruturas com os seus simpatizantes. Se quisermos ser benevolentes podemos pensar que as forças se opõem enquanto puxam cada uma para seu lado. Se quisermos ser mais realistas aceitaremos que isto só trará complicações no melhor dos casos e paralisação no pior deles.
O caso da detenção de Sócrates é disto um exemplo. Sócrates foi detido com câmaras de televisão por perto, isto apesar de a divisão aeroportuária da PSP saber da detenção. Ou seja, alguém avisou a estação e podemos assumir que não foi para ir esperar a chegada de um jogador de futebol. Por outro lado, os inspectores suspeitam que Sócrates saberia da detenção. Isto dá a ideia de haver fugas de informação dos dois lados da barricada Sócrates, ambos comprometidos de alguma forma com o desfecho político do caso – o judicial, a bem dizer, não interessa ao público.
Temos hoje muitos detalhes pelos jornais das movimentações. Os jornais e televisões parecem ter muitos conhecimentos sobre o assunto. Não terá sido por investigações próprias, presumo, pelo que as barricadas andam a disparar informação. Pessoalmente não lerei as suspeitas nem os esquemas. Não me interessam e, seja como for, não tenho competências técnicas para as perceber. Seria levado pelo tom do jornalista que escrevesse a peça.
Sei que Sócrates, neste momento, só não estará acabado se provar ter existido alguma cabala criada para o incriminar. De outra forma está politicamente morto, com ou sem condenação final. Até lá só espero que parlamento, governo e presidência se escusem de comentar seja o que for além dos tradicionais “deixar a justiça trabalhar” e “assumimos a presunção de inocência“. Qualquer aproveitamento político do caso, mais do que a detenção em si, seria então mais um golpe, e mortal, no nosso sistema político.

J.A.:
Quanto a Sócrates estar politicamente morto com este episódio, discordo apenas por considerar que já estava irremediavelmente morto antes disto.
Suscitava tantos ódios pela sua maneira agressiva de agir, pelas falcatruas da licenciatura, pelos rabos-de-palha do Freeport, Cova da Beira, Face Oculta que não tinha futuro político.
Se vir bem, até os apaniguados não abundavam, era-lhes já desconfortável a sua companhia, basta ver a sua proscrição nos actos públicos do PS.
Só o facto de a Justiça estar partidarizada e de servir estratégias político-partidárias justifica que a investigação não tivesse feito o seu caminho devidamente nos casos que referi.
Mas é a Justiça que até agora conseguimos pôr de pé como sociedade, que é o reflexo do que somos colectivamente e da forma como nos organizamos.
São os compadrios políticos, as fugas de informação e as protecções que explicam que outros passarões façam a sua vida como cidadãos pacatos: talvez apenas porque têm um padrinho mais forte no reino da máfia político-partidária lusitana.
Se por politicamente morto entende que ele já nãos eria eleito eu discordo mas pouco. Se entende que já não tinha peso, aí então discordamos mais. Sócrates ainda tinha grande capacidade de influência, no PS e no estado. Parcialmente pelos amigos e parcialmente porque quem passa 6 anos no poder não perde o peso.
Já em relação à justiça, suponho que tenho esperança mas pouca fé. Sou algo agnóstico.
Levantar alguém politicamente morto e enterrar vivo quem o substituiu é uma febre que por ai anda. Com pouca confiança e muito interesse.
Olhando como um jornalista de investigação a teoria das “fugas” não colhe. Quem ao saber que o motorista e o melhor amigo foram recolhidos ficava a espera de quê? que o juiz Alex lhe mandasse um convite para o baile sem sair de casa?
Experimente quem gosta de teorias de mortes politicas apresentar o Isaltino a eleições livres em Oeiras e depois façam as justificações do sucedido.
Pelo que percebi, Sócrates teria adiado a sua viagem antes da detenção dos outros 3. Isso basta para deitar a tese abaixo.
Isaltino estava num microcosmo muito especial: não compare autarquias com países. Sócrates só ressuscitará se provar indubitavelmente à maioria que isto é tudo uma cabala urdida pelo PSD. E isso nunca acontecerá (mesmo que seja/fosse verdade).
“O caso da detenção de Sócrates é disto um exemplo. Sócrates foi detido com câmaras de televisão por perto, isto apesar de a divisão aeroportuária da PSP saber da detenção. Ou seja, alguém avisou a estação”
Chama-se fontes. Parece que neste caso para muita gente as fontes devem secar.
De repente num ápice as fontes dos jornalistas passaram a ser coisa má.
Não são uma coisa má. Mas violação do segredo de justiça é mau, é crime e pode arruinar uma acusação. Isso será preocupante se alguém estiver interessado em prolongar o caso Sócrates para além da tramóia dos vistos gold, da demissão de um ministro, e da aprovação de medidas impopulares na AR. Realmente depois disto passar já ninguém precisa de se lembrar do Sócrates, mas agora era preciso desviar a atenção, por isso dá jeito os jornalistas terem boas fontes…
Como o José explicou, as fontes não são más, mas as fugas de segredo de justiça sim. Sócrates está já quase completamente julgado em praça pública ainda antes de ter um interrogatório terminado. Isso não é mau. É desastroso. E sê-lo-ia para qualquer um.
As fontes não são coisas más apenas quando são sempre para os mesmos
Sócrates é sócrates! Está tudo dito. O homem é único. Tal como Vale e Azevedo é único. Mas será que não têm muito em comu?
A justiça até ao momento parece estar a fazer o seu trabalho, h´ainda 2 cenários provaveis;
-Socrates mesmo em julgamento não conseguem condená-lo por falta de provas fisicas e o dinossauro politico que é, consegue dar uma volta de 360 graus.
_Socrates durante este processo todo , via arrastar consigo várias figuras politicas e não só para o mesmo buraco e a politica portuguesa vai ser obrigada a ser profundanente revogada se não mesm$o a politica europeia, pois sejam ou não corruptos, os que lá andam agora são incompetentes e continuam a atrair para portugal e para a europa todo o tipo de mafias que consegue corromper tudo e todos os cargos que deviam ser e conseguir ser imunes a qualquer tipo de influencia deste tipo.
Não se esqueçam de um promenor, o dinheiro quando é tirado às pessoas com jsutificações de que é para o bem comum e depois vemos os cargos superiores , empresa, grupos , bancos, politicos etc a terem grandes lucros e os mesmo não são distribuidos, geram sentimento de injustiça e revolta que não tarda muito , irá acontecer as forças militares teram que depor novamente o poder politico e darem-no ao povo para que se decida de uma vez o que fazer a este País que não evolui neste sentido à 43 anos , ou seja desde que me lembro.
Nova intervenção militar seria muito mau. Nunca sei para onde se viram. Poderiam fazer pior. Sim, é possível.
Mais um daqueles textos típicos da que abundam em circuntâncias como esta e que, no fundo, constituem um reflexo da sociedade portuguesa. Desconfiamos de todos os políticos (assim como desconfiamos todos uns dos outros). No entanto, se um político é apanhado numa investigação (processo natural que poderá conduzir a uma condenação ou não, sem que isso devesse ser visto como sucesso ou insucesso da justiça em si) desconfiamos logo de perseguição política e de cabala.
Por outro lado, não me parece correcto dizer-se que a justiça é dominada por boys que devem os seus lugares ao PS e ao PSD. Se isso pode ser aceite em relação ao Procurador Geral (embora discutível), o mesmo não se pode dizer dos juízes. Por isso, quando há uma detenção ou medida de coação ordenada por um juíz, assim como deve presumir-se, até prova em contrário, que o arguido é inocente, também deve presumir-se, até provas em contrário, que o juiz fez o seu trabalho correctamente, de acordo com os indícios que dispunha.
Quanto a fugas de informação, as mesmas acabariam ou diminuiriam, se fosse obrigado aos jornalistas revelarem as suas fontes e assim, apanhar os culpados. Mas ninguém quer isso pois outros valores e interesses (legítimos) têm de ser protegidos. Quanto à morte política, mesmo que venha a ser declarado inocente, isto não é um problema da justiça mas sim da tal desconfiança.
Um pouco menos de desconfiança na justiça e menos rapidez em acusá-la de actuar e não actuar seria bom.
Meus senhores eu uma cidadã deste pequeno Pais faço uma pergunta a todos os políticos onde está a classe politica não corrupta?
Tratando-se de uma figura pública que só o é por ter sido político e 1º ministro de Portugal, as elacções políticas fazem-se e têm todo o sentido de serem feitas. Desligar os “factos” da sua actividade de político é mesquinhez e falta de bom senso.