Descobrir o passado


Diogo Novo,

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Begoña Urroz tinha 22 meses de idade quando morreu queimada na sequência de um atentado bombista. Foi a 27 de Junho de 1960 na estação ferroviária de Amara, em San Sebastian, no País Basco. Durante décadas o atentado foi atribuído à ETA. Begoña seria, aliás, a primeira vítima mortal do terrorismo basco. Em 2010, a data do atentado foi instituída pelo parlamento espanhol como o dia de homenagem às vítimas do terrorismo.

Um estudo publicado hoje pelos investigadores Gaizka Fernández Soldevilla e Manuel Aguilar Gutiérrez desmente essa tese, provando que a acção foi da responsabilidade do Directório Revolucionário Ibérico de Libertação (DRIL), um grupo armado luso-espanhol composto por militantes anti-salazaristas e anti-franquistas. Na sua ala portuguesa, o DRIL contou, entre outros, com Humberto Delgado, Henrique Galvão, Camilo Mortágua e Victor Cunha Rego.

 

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“Muerte em Amara: La violencia del DRIL a la luz de Begoña Urroz”, uma edição do Centro Memorial de las Víctimas del Terrorismo, resgata um pedaço de História contemporânea do canto obscuro onde esteve esquecido. O estudo é fruto de um trabalho de investigação notável assente em muita documentação inédita. E permite vislumbrar o que foi a participação portuguesa em actos de violência política além fronteiras. Só por isso merece atenção por cá. Os interessados podem descarregar a versão em pdf de forma gratuita aqui.

0 comentários em “Descobrir o passado”

  1. Qual foi (ou teria sido) a motivação para esse grupo colocar uma bomba nessa estação ferroviária? Sabe-se? Foi só para causar barulho e terror? Foi para matar alguém em particular?

  2. Nesse tempo (1960) havia uma perceção bem diferente do valor da vida humana daquela que há hoje. A natalidade e a mortalidade eram muito maiores e, por isso, a vida humana tinha muito menos valor, na perceção das pessoas, do que tem hoje. Em particular, a morte de uma criança de dois anos era corrente (a título de exemplo, um primo direito do meu pai teve cinco filhos, dos quais dois morreram na meninice).

    Também o terrorismo e a guerra eram vistos de forma bem diferente da atual. Era o tempo dos movimentos de libertação africanos. O terrorismo do Irgun judeu e as guerras israelo-árabes estavam ainda bem presentes. Colocar uma bomba, que atualmente é um gravíssimo crime, seria nesse tempo uma coisa quase corriqueira.

    1. Suponho que depois de enterrarem a miúda os pais deram uma festa de arromba, não? Pôr bombas, perder filhos assassinados eram coisas corriqueiras, ninguém lhes ligava nenhuma.

      Aliás, a julgar pela sua expressão (deles, pais) deviam estar fartos da pequena. Aposto que os acordava a meio da noite.

      Enfim, no fundo concordo consigo: é preciso contextualizar e relativizar. Hoje, por exemplo, se em vez de ser uma miúda de pouco menos de dois anos a morrer fosse um imbecil ninguém ligaria. É que os há cada vez mais e cada vez mais assustadores.

    2. Nesse tempo (antes de 1960), já Camus escrevia o seguinte: “Se um terrorista lança uma granada no mercado de Belcourt frequentado pela minha mãe e ele a mata, serei responsável se, para defender a justiça, eu tiver igualmente de defender o terrorismo. Amo a justiça, mas amo também a minha mãe.”

        1. “Mas é assim. Por hoje, chamados danos colaterais” Como aconteceu na ex-Jugoslávia (muitos danos colaterais mas aí eram com boa intenção).

        2. Não há danos colaterais. Essa é uma expressão assassina. A retórica não revive mortos. Há danos. Ponto.

        3. “Quando se mata em nome de um ideal …”

          Bom, aí depende do ideal… se for um ideal dito de direita, foram praticados cruéis assassinatos, se for um ideal dito de esquerda, aí, sim, foram danos colaterais, coisa de somenos.
          Que lógica tão conveniente. E, sim, é a lógica subjacente ao post de LL.
          Branqueamento é tudo …

          1. “se for um ideal dito de esquerda, aí, sim, foram danos colaterais, coisa de somenos.”
            Falou-se muito de danos colaterais quando os aviões americanos bombardearam a Jugoslávia. Eram de esquerda as forças que bombardeavam??

  3. Camilo Mortágua!!?? É estranho tão fino democrata, humanista e filantropo envolvido em tais lides!!
    Sinceramente, acho curioso mas implausível!! Talvez se sigam outros “estudos” sobre atentados atribuídos à ETA, ou mesmo reivindicados pela ETA, que, afinal, não o foram pela ETA mas sim pela tia Gertrudes ou pela frente de libertação das berlengas! É conveniente, nos dias que correm!!

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