Descalabro em Munique


joaomsandre,

Quando o FC Porto conseguiu a vitória sobre o Bayern de Munique no Porto fiquei contente por eles. Fiquei também convencido que poderiam passar, aguentar a pressão em Munique. Sabia que a vitória tinha sido mais devido a erros do Bayern que devido aos ataques brilhantes do FC Porto (o único verdadeiro ataque do Porto que tinha dado em grande oportunidade foi parado por Neuer). É no entanto também assim que se conseguem as vitórias na Europa: cometendo menos erros que o adversário. No fundo, pensei simplesmente que o FC Porto teria capacidade para complicar a vida ao Bayern e emperrar novamente aquela máquina bem oleada.

 

 

Havia um par de “mas” entalados. Um era precisamente a falta de produção ofensiva de mérito próprio na primeira mão, mas essa preocupava-me pouco. O principal mas residia nas alas: não havia Danilo nem Alex Sandro. Pensei de imediato em Martins Indi e estremeci: sempre que ele foi para defesa esquerdo e enfrentou um ala rápido a coisa correu mal. No outro lado não fazia ideia quem jogasse, mas seria certamente pior que Danilo.

 

Acabou por ser precisamente por aí que o FC Porto perdeu o jogo. Quaresma nunca foi dos jogadores mais dedicados a tarefas ofensivas e não é aos 32 anos de idade que vai mudar. Bernat, um lateral que é quase médio, teve sempre toda a liberdade para fazer o que queria. O resultado foi que Reyes, lateral improvisadíssimo e sem rotinas de jogo, acabou por ter de enfrentar Bernat e Goetze sozinho. Como se viu no primeiro golo.

 

Do outro lado Martins Indi beneficiou de não ter nenhum ala de raiz, mas Lahm e Rafinha sabem o suficiente para lhe complicar a vida. Brahimi ajudou simplesmente mantendo Rafinha mais disciplinado, mas sempre que Lahm teve espaço à sua frente sabíamos quem ganharia num despique em corrida com Martins Indi.

 

Entre os centrais, quanto menos se disser melhor. Os 3 primeiros golos foram todos de cabeça. Sempre por mau posicionamento ou graças à incapacidade de antecipação dos centrais. Thiago, Lewandowski e Boateng não estão exactamente ao nível dos avançados do Estoril, mas ainda assim… Já Fabiano demonstrou que não é guarda-redes para o FC Porto na Europa. Há uma semana mostrou que não sabe passar. Cada bola atrasada dava calafrios. Agora demonstrou ser fraquinho até entre os postes (os golos de Boateng e Mueller eram perfeitamente defensáveis para um bom guarda-redes).

 

Por fim, palavra ao Bayern. Depois do descalabro de há uma semana aprenderam a não menosprezar o Porto. Isso começou por fazer a diferença. Depois houve uma mudança táctica importante: Badstuber no lugar de Dante. Não porque Dante seja mau, mas porque Badstuber é mais cuidadoso com a bola. Isso permitiu que Xabi Alonso subisse no terreno (até porque o FC Porto pressionou mais baixo) e deu mais tempo para organizar o jogo, oferecendo uma alternativa mais no meio campo para as triangulações de passe. O resto foi essencialmente o festival de Thiago, a qualidade do Bayern e a inexperiência do FC Porto.

 

Não sendo portista, não estou triste. Mas sei que se o FC Porto quiser progredir, não só necessita de substituto para Danilo como precisa de arranjar substitutos para os laterais titulares. Outro guarda-redes também lhes daria jeito. O resto virá através da experiência.

 

0 comentários em “Descalabro em Munique”

  1. Eu apesar de ter ficado triste com a derrota interrogo-me da justeza de andar a torcer por uma equipa que de portugues tem o estadio, os dirgentes do dinheiro; até o treinador sendo iberico não nos é amis próximo que o outro que tambem é iberico. Somos uns seres de habitos.

    1. Concordo caro cristof. Essa é uma razão por eu hoje em dia ter pouca vontade de ver o sjogos do Benfica, seja na Europa seja em Portugal. O mesmo penso em relação ao FC Porto. Era-me fácil simpatizar com o FC Porto de 2004, mas este? Não tanto. É mesmo só o hábito.

      Ainda assim, fosse contra o Borussia Dortmund, possivelmente ficaria mais dividido.

      1. Essa agora, clube é clube, país é país. Na Catedral é comum estarem presentes gloriosos benfiquistas de várias nacionalidades: portugueses, britânicos, Palop’s, brasileiros, alemães, nórdicos. Para mim é Benfica é Benfica. No que resta aprecio quem joga melhor e tem melhor espírito. E o Bayern teve muito mais disso. Deliciei-me com os seus golos. Não festejo derrotas dos outros, só vitórias do Glorioso e bom futebol. Sou benfiquista, por escolha, no meio de “portistas”, no penta da minha meninice.

  2. Grande análise, João. Confirma-se: és talvez o membro do DELITO que mais percebe de futebol.

    Aproveito só para duas adendas.
    Uma para elogiar o Guardiola, que nem é um treinador da minha particular simpatia: ao lançar Dante aos 90′, muito mais do que queimar tempo, deu face ao jogador, que tinha sido o principal responsável pela derrota na primeira mão. Valeram mais aqueles quatro minutos de tempo suplementar em campo, para o defesa do Bayern, do que vinte sessões de psicoterapia.
    Isto é uma atitude de líder. Todos os candidatos a líderes – no futebol e fora dele – deviam aprender com pormenores destes.

    Segunda adenda, cruel para o FCP.
    Esta foi a pior primeira parte de sempre do futebol português na Europa.
    Nunca antes uma equipa portuguesa envolvida em competições europeias tinha estado a perder aos 45′ por um resultado acima de 4-0.
    Mais: nunca na história da Liga dos Campeões se havia registado até hoje um resultado destes – também ao intervalo – nos quartos-de-final da competição.
    E, como hoje sublinha o jornal ‘A Bola’, «só por seis vezes uma equipa fora goleada por cinco ou mais golos na mesma fase da prova”.
    Nenhuma delas portuguesa, felizmente. Até à noite de ontem.

    1. Deixas-me embaraçado Pedro… Talvez eu seja essencialmente o mais imparcial dos que ligam ao futebol. A distância ajudará a diluir paixões.

      Concordo contigo no que diz respeito a Guardiola. A obsessão dele pela perfeição cansa-me. Não tem nem o carisma nem a excentricidade de Bielsa para me enternecer. Mas é difícil negar as suas capacidades, quer tácticas quer de motivador. Também vale a pena notar que após marcar, Boateng foi a correr também ele para Dante. Isto só sucede numa equipa muito motivada e unida.

      É verdade que o FC Porto foi esmagado, mas não vejo humilhação. Os jogadores pura e simplesmente não aguentaram a pressão e a táctica inicial falhou. Lopetegui até a corrigiu, mas nessa altura já os jogadores do Bayern tinham explorado impiedosamente os espaços. Podemos falar no passado, mas se olharmos para Bayern, Real Madrid e Barcelona, estamos a falar em 12 lugares dos últimos 20 em meias finais (15 em 24, depois desta noite). Isso significa que nunca houve uma era de tanta dominância de 3 equipas, as quais estão tão acima das restantes e têm tanta fome de golos que os adversários, uma vez batidos, rendem-se e deixam-se espezinhar.

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