Deriva com Bosch


Teresa Ribeiro,

Contemplar um quadro de Bosch é ver o que escondemos. Foi por isso que esse génio louco tanto me atraiu quando o descobri, mal saída da idade do armário. Ver uma reportagem sobre os horrores da guerra é sobrepor as imagens às do Inferno do pintor holandês e perceber que se ajustam.

Ler um romance sobre um torcionário, como por exemplo, A Festa do Chibo, de Llosa, é trocar a grande angular pela tele-objectiva. Se tivesse nascido escritor no século XX talvez Hyeronimus escrevesse algo semelhante, ou optasse por uma violência mais ao estilo de Hei-de Cuspir-vos na Campa, de Boris Vian, ou imitasse Comarc McCarthy. Fazer literatura é uma boa catarse, mas o cinema também cumpre bem a função. Se no século XV já se filmasse, talvez o mestre realizasse algo semelhante a Saló, de Pasolini, ou seguisse as pisadas de Sam Peckinpah.

Mas quem sabe se o precursor do surrealismo não terá voltado já a este mundo e na atrapalhação do parto tenha perdido o talento natural. Nesse caso pode muito bem ter encarnado num serial killer, num fanático religioso, num pervertido sexual, num ditador sanguinário ou num chefe de família prepotente e incestuoso. Há muitos perfis dentro da mesma gama de cores. Este do chefe de família incestuoso ocorreu-me porque ontem vi um documentário sobre vítimas de incesto, algo que me conduziu ao ponto em que me achei quando pela primeira vez olhei pasmada para um quadro de Bosch.

Diz que só em França calcula-se que haja dois milhões de vítimas. Mas se calhar nem andamos devagar, os séculos é que passam por nós demasiado depressa.

2 comentários em “Deriva com Bosch”

  1. Eu também já vi uma estimativa segundo a qual 10% dos ingleses não são filhos do pai que julgam. De onde se deduz que as vítimas de encornamento são muitas mais do que o que se pensa.

  2. Incesto, encornamento e torcionarismo ‘, se virmos bem, são aleijões sociais de que todos nos devíamos penitenciar.
    Parece que os russos vão impedir que que Madona ponha os pés na Rússia, porque, dizem eles, a perversão (da senhora escandalosa) não pode ser aplaudida.

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