Delitos poéticos (29)


fiodeprumo,

(“Apolo e Ciparisso”, Claude-Marie Dubuffe)

 

Nas ervas

Escalar-te lábio a lábio,
percorrer-te: eis a cintura
o lume breve entre as nádegas
e o ventre, o peito, o dorso
descer aos flancos, enterrar

os olhos na pedra fresca
dos teus olhos,
entregar-me poro a poro
ao furor da tua boca,
esquecer a mão errante
na festa ou na fresta

aberta à doce penetração
das águas duras,
respirar como quem tropeça
no escuro, gritar
às portas da alegria,
da solidão.

porque é terrivel
subir assim às hastes da loucura,
do fogo descer à neve.

abandonar-me agora
nas ervas ao orvalho –
a glande leve.

Poema de Eugénio de Andrade

2 comentários em “Delitos poéticos (29)”

  1. Se entendesse, Obiang havia de gostar.

    Pensando melhor, ainda havia de querer condenar à morte o autor e mais o Apolo e o Ciparisso.

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