DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Ana Margarida Craveiro: «Podemos decidir, só pela idade, se uma pessoa “merece” sequer a escolha de um tratamento? Então, que pensar de idosos tão famosos e activos como Gentil Martins, Mário Soares, ou Manoel de Oliveira?»

 

Ana Vidal: «Não é que eu esperasse muito da Lusa, mas aqui está mais uma prova de como os critérios editoriais têm vindo a mudar em Portugal nos últimos anos. Admito, por razões orçamentais, que sejam fundidas as secções “lusofonia” e “internacional” numa única editoria, mas que se extinga liminarmente a de “cultura”, passando os seus elementos para a de “sociedade”, diz tudo sobre o que é realmente importante para quem escolhe as notícias que nos faz chegar. Espera-nos, provavelmente, uma cultura cor-de-rosa.»

 

Helena Sacadura Cabral: «Sempre que leio uma notícia como a que hoje vinha no Correio da Manhã a dizer que “quinze mil docentes reformados custam ao Estado cerca de vinte e seis milhões de euros”, fico um pouco baralhada. “Custam”? Mas então nós não andamos a descontar, para ter direito à reforma? A reforma não será a contrapartida do que entregámos para ela? Claro que eu sou paga pela geração seguinte, como a geração anterior foi paga por mim.»

 

Ivone Mendes da Silva: «Para Heidegger a angústia é um sentimento solitário. É certo que se refere a outro tipo de angústia, mas teria mudado de ideias se conhecesse uma única destas figuras que, visitadas pela desventura, sentem necessidade de gritar às mulheres de Corinto, que é como quem diz a todas as que encontram, as inaudíveis vinganças que vão congeminando. A expressão desta angústia não tem nada de solitário.»

 

José António Abreu: «As mulheres sempre acusaram os homens de, após algum tempo de relação, tenderem a tratá-las como empregadas domésticas. Para não variar, estão apenas parcialmente correctas: é verdade que, passada a fase dos arroubos de romantismo, o que os homens desejam mesmo é uma mulher a dias. Mas não para lhes limpar a casa (bom, isso também, se puder ser); uma mulher a dias no sentido de estar presente durante umas horas três ou quatro dias por semana, com horário e serviço nocturnos incluídos, e que depois os deixe em paz. No fundo, o mesmo que imensas mulheres desejam dos homens.»

 

José Gomes André: «Um resumo das contendas no Iowa e New Hampshire? Romney venceu em ambos os Estados e consolidou o seu estatuto de favorito. Tem consigo os independentes e os Republicanos moderados, e até boa fatia dos conservadores, que já perceberam ser Romney o melhor posicionado para enfrentar Obama. Os adversários e os media da Direita “Tea Party” continuam a apontar-lhe falhas, mas não têm aparecido adversários à altura. Só um cataclismo eleitoral poderia afastar Romney da nomeação.»

 

José Navarro de Andrade: «A sala do institucionalíssimo Barbican Center de Londres esgotou os 1949 lugares, a orquestra da BBC apresentou-se na máxima força e em plena forma, a televisiva BBC 4 transmitiu em directo, o comentador inicial está visivelmente entusiasmado com o que se vai seguir. Tudo isto para experimentar, decerto mais do que ouvir, o célebre 4’33’’ de John Cage, uma composição que embora curta parece enorme e poucos ousam incluir no seu repertório. Começa a ser longínqua esta noite de Janeiro de 2004.»

 

Luís M. Jorge: «Há aqui uma resistência à vergonha de que os nossos jornalistas aparentemente não suspeitam, enquanto promovem mandarins a senadores.»

 

Rui Rocha: «Sempre fui um tipo de convicções. De levar as coisas até ao fim. Já em criança era assim. Recordo-me de ter para aí cinco anos e de, indignado com um episódio doméstico, ter decidido sair de casa. Sem contemplações, abri a porta e fiz-me à estrada. Ainda dei uns bons 50 passos. Acreditem ou não, fui para lá da casa da Rosa da Russa. Na verdade, foi já pertinho do cruzamento do Sisto que decidi, de forma irreversível e irrevogável, voltar para trás. E mantive-me inflexível. Contra tudo e contra todos. Estava cheio de saudades da minha mãe.»

 

Eu: «Começo a simpatizar com o aborto ortográfico. Porque nos permite momentos de incomparável humor, ainda que involuntário. Reparem só neste, proporcionado por uma entrevista da bela actriz Joana Santos ao suplemento ‘Atual’, do semanário Expresso. “Quando era miúda, sonhei ser mil e uma coisas. Quis ser arqueóloga, arquiteta…”, disse ela. Na peculiar ortografia adoptada pelo jornal, até parece ter dito algo diferente.»

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