DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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João Carvalho: «Por aqui se vê a vantagem de uma rotunda para organizar o trânsito. Faz toda a diferença. Não resolve a fluidez, mas torna o caos muito mais organizado.»

 

José António Abreu: «O meu avô Carlos era viciado em automedicação. Experimentava tudo ao mais leve sintoma. Ultimamente, por causa das hemorróidas – reais, creio –, andava a tomar Trifene 200. Dizia que os resultados eram espectaculares. O meu pai murmurava: «Só espero que aquilo não tenha efeitos esquisitos. Que não lhe faça crescer as mamas, ou coisa parecida.» A minha mãe encolhia os ombros, suspirava e dizia: «É um analgésico, não lhe faz mal nenhum.» Mas o meu pai não ficava sossegado. «Por alguma razão o publicitam para o que publicitam», resmungava. No fundo, ainda que recusasse admiti-lo, o medo dele era que, em resultado do Trifene 200 e aos setenta e seis anos de idade, depois de uma vida de facadas no matrimónio (que o meu pai não conseguia deixar de invejar), o meu avô se tornasse subitamente homossexual.»

 

Luís M. Jorge: «Há pouco mais de uma semana José Sócrates afirmou que as dívidas de um Estado são por definição eternas — uma evidência que não inibiu a direita de lhe cair em cima. Ontem, Pedro Passos Coelho esclareceu que não haverá emprego para milhares de professores, sugerindo-lhes em alternativa os países de língua portuguesa — declaração sensata, pela qual é hoje fustigado com indignação universal. Em Portugal podemos dizer tudo, excepto a verdade. No fundo isto não é um país, é uma ópera bufa.»

 

Luís Menezes Leitão: «Este é um bom retrato do país nesta segunda década do séc. XXI. Os estrangeiros vão ser retirados rapidamente para os seus países, mulheres e crianças primeiro. E quanto aos portugueses, resta-lhes emigrar para terras longínquas, já que a Europa foi chão que deu uvas. Acho que só atravessámos situação pior do que a dos tempos actuais quando Portugal sofreu o terramoto de 1755. Com a diferença de que hoje não temos nenhum Marquês de Pombal.»

 

Rui Rocha: «Pinto Monteiro propõe candidatura da dieta sucateira a Património Imaterial da Humanidade.»

 

Eu: «Muitas vezes as melhores frases não surgem da pena de eminentes pensadores mas da boca de pessoas simples. Pensei nisso há pouco, ao ouvir uma peça noticiosa num dos canais televisivos sobre a morte de Cesária Évora. Um amigo da cantora, no Mindelo, falou dela nestes termos lapidares: “A morte não interrompe a vida. Cesária continua viva, do outro lado da vida.” Creio que é mesmo assim.»

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