DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Ana Margarida Craveiro: «Parece que já há por aqui quem ande aos pulinhos para invadir o Irão, e as declarações a esse respeito sucedem-se. Pelos vistos, podemos tirar os neoconservadores da Casa Branca, mas a Casa Branca não sai do neoconservadorismo.»

 

Ana Vidal: «Para trás, maledicentes de serviço! Não é verdade que os deputados estejam imunes à austeridade nacional. Confirma-se que já nem sequer almoçam, coitados. Como sei disso? Simples: é a única explicação para estarem acordados durante o discurso do ministro da Economia. Não fora esse imperativo de contenção e o som mais ouvido na assembleia, esta tarde, seria o ressonar em uníssono de 230 criaturas, com o maestro Álvaro na batuta.»

 

José Maria Gui Pimentel: «Foi há pouco – muito pouco – tempo que assimilei por completo um facto de que me vinha apercebendo lentamente nos últimos anos, designadamente a dimensão da Civilização Chinesa, e o facto de esta ter sido, até aos Descobrimentos, não só garantidamente rival como, muito possivelmente, mesmo superior àquilo a que simplisticamente chamarei Civilização Ocidental.»

 

Leonor Barros: «Foi quando num fim de tarde batido pela chuva e numa conversa em alemão sobre o Outono comecei a achar que o Rilke era um visionário e que aquele poema que se me entrava pela alma estava prenhe de referências a esta triste sina lusa. Enquanto a discussão decorria dei por mim a fazer associações ao encontro deste fado lusitano de desgraçados e enjeitados. Podem chamar-lhe intemporalidade, que sim, que quando um poema é lido vive outra vez, muito bem, apelar à estética da recepção e nomear-me como co-autora do texto, perfeito. Nada me convencerá.»

 

Luís Menezes Leitão: «Enquanto o país continua a afundar-se todos os dias, como se vê por esta notícia, o ministro da Economia anuncia o fim da crise para 2012. Em que país vive ele? No Canadá?»

 

Eu: «Leio uma biografia de Ernest Hemingway distribuída gratuitamente com o Expresso. Na capa, o nome do autor — um tal Hans-Peter Rodenberg, sobre o qual ficamos a saber quase nada — vem impressa em corpo muito reduzido, enquanto o autor do prefácio, Miguel Sousa Tavares, surge em letras muito mais visíveis apesar de escrever apenas três páginas. A obra está traduzida em acordês, numa apressadíssima tentativa de beber o ar do tempo. E nem Sousa Tavares — público e notório opositor a essa aberração que é o “Acordo Ortográfico” de 1990 — escapa à fúria avassaladora dos acordistas, que querem moldar tudo e todos ao seu padrão, mesmo quem não comunga dessa obsessão de extermínio das consoantes ditas mudas.»

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