DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Ana Lima: «Sou uma daquelas idealistas que acham que o Estado tem uma função indispensável e importantíssima a desempenhar em sectores que os privados, porque não têm essa vocação, não conseguem abarcar ou, pelo menos, levar a cabo com os mesmos pressupostos.»

 

Fernando Sousa: «Não conheço a natureza das coisas, muito menos a do mal, mas sei, isso sei, o que é respirar em ambientes fechados ou ter de ouvir de manhã à noite  uma série de chatos de pai.»

 

Ivone Mendes da Silva: «Quando a frota grega se aproximava de Tróia, fazia-o num movimento apenas perceptível aos ouvidos de Cassandra que via, como se fossem presentes, as noites futuras de cidade e o seu fim. À filha de Príamo tinha sido dado o poder de predizer o futuro, porém o deus Apolo, senhor dos oráculos, despeitado com a recusa da princesa em aceitar as suas atenções, fez com que a palavra dela, ainda que participasse da verdade, não fosse persuasiva.»

 

João Carvalho: «No poço da morte estamos todos nós, atirados para uma espiral de que não há memória. Só me falta perceber se aquele que está de gatas em cima do carro é quem eu penso. Se for, não admira que vá inseguro. Resta-lhe consultar as sondagens para saber se alguém acha que vai fermoso. Mas não me cheira.»

 

Leonor Barros: «Se és funcionário público, és um merdoso manga-de-alpaca, proxeneta de todos os trabalhadores honestos e cumpridores deste país. Não fazes nada, faltas sempre que podes, recorres a atestados médicos falsos, tens regalias sem limites, vais passar férias para as Caraíbas com o dinheiro do vizinho, tens casas, carros, telemóveis, ganhas acima da média e, mau, funcionário mau e ranhoso, filho da puta mor, culpado de todos os males deste país, tens o que mereces agora. Se te reduzem o salário é porque o mereces, se te roubam o subsídio de férias e subsídio de natal por tempo que se prevê indefinido, é bem feito. Querias o quê, ó chulo de merda?»

 

Patrícia Reis: «Agustina Bessa-Luís, que nasceu velha e morrerá criança, como dia, faz anos hoje. “O medo faz as pessoas extravagantes, mas não as faz originais,” escreveu em tempos e ainda “Uma nação não nasce duma ideia. Nasce dum contrato de homens livres que se inspiram nas insubmissões necessárias ao ministério dos povos sobre os seus infortúnios”.»

 

Rui Rocha: «A avaliação das marchas dos indignados em Portugal fica condicionada pela comparação com os protestos de 12 de Março. Menos manifestantes num contexto social e economicamente mais degradado do que o de então permitem a conclusão de que se tratou de um relativo fracasso. Por outro lado, não faltarão as críticas relativas à falta de consistência da manifestação. Que objectivos, alternativas e caminhos têm os manifestantes para propor?»

 

Teresa Ribeiro: «É bom que os donos do mundo não se esqueçam que apesar de serem o elo mais fraco, as pessoas são sempre os principais agentes da mudança. É com elas que se fazem as revoluções.»

 

Eu: «Agimos como ricos. Convencidos, de facto, que éramos ricos – a conversão do escudo em euro elevava-nos, sem aparente esforço, ao estatuto económico dos alemães. Em mil discursos falaram-nos das maravilhas do “investimento público”, no prodígio das grandes infra-estruturas dignas de encher o olho: havia 20 mil novas rotundas para construir em vilas e cidades, havia novas habitações prontas a erguer no país dos 500 mil fogos vazios, indiferente à reabilitação urbana. E a “alta velocidade” ferroviária levar-nos-ia sem demora à Europa das luzes. Tudo isto enquanto fechavam fábricas, se abandonavam os campos, se desmantelava a frota pesqueira, se encerravam minas e explorações pecuárias, se descuidava o nosso vasto património florestal.»

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