
Ana Margarida Craveiro: «Agora que penso em SCUTs, lembro-me de outra coisa. Eu até posso concordar com o princípio do utilizador-pagador, mas gostava mesmo, mesmo era de saber que raio fizeram àquele imposto incluído na gasolina para pagar as SCUTs. É que, assim de repente, eu tenho ideia de já ter pago a porcaria das SCUTs vezes sem conta. Onde está esse dinheiro? Gastaram em quê, agrafos e clips?»
Cláudia Köver: «Entre vizinhos todos conheciam a Dona Esmeralda, que se queixava dos buracos das toupeiras. Tinha olheiras de quem passava à noite à coca e comichava do nascer ao por do sol. E, todos os dias, a vizinhança prestável, fazia o frete de ajudar na caçada cega.»
Ivone Mendes da Silva: «Como as coisas do quotidiano me enfadam, dou comigo, amiúde, a pensar em figuras mitológicas e nas suas histórias. Claro, bem sei que pensar em mitos é outro modo de pensar no quotidiano, essa Hidra de muitas cabeças que retornam, inesperadas, em cada esquina dos dias úteis. Andava eu à procura de umas imagens de Orfeu, quando vi Eurídice que caminhava silenciosa atrás dele num quadro de Poussin.»
Luís Menezes Leitão: «É tempo de pôr um fim à cobrança de impostos ilegais. As câmaras municipais, e Lisboa deveria servir de exemplo, têm que aprender a viver dentro das suas possibilidades. Os contribuintes não têm que pagar o despesismo municipal. Já basta terem que suportar o despesismo do Estado central.»
Patrícia Reis: «Agora não se pode fazer nada, o pensamento era circular. A mulher deitou-se para o outro lado. Devagar, consciente de cada centímetro do corpo. Se fosse uma peça de mah jong bastaria encontrar o par e desaparecer. A cama estava vazia. A mulher tentou ligar a televisão, ciente de que seria uma tarefa impossível. Em vez de maldizer a quantidade de comandos, a box, o raio, limitou-se a ficar quieta. O pior de tudo é que ficar quieta também não era uma opção. Suspirou baixinho. Ouviu o vizinho de cima na casa de banho e os saltos da mulher para trás e para a frente. De resto, o silêncio permanecia, menos no corpo.»
Eu: «O drama de Amanda Knox serve para confirmar – partindo do princípio de que isto ainda é necessário – a brutal desumanidade da pena de morte, vigente em países como a China, o Irão e os EUA. Porque torna irrevogável o erro judiciário, presente no quotidiano dos tribunais de todo o mundo. Pior que um erro grave, só mesmo um erro irreparável.»
