
Ana Vidal: «Troy Davis está morto. Era inocente, como afirmou sempre, ou era culpado? Talvez nunca venha a saber-se. Ou talvez um dia surjam novas provas. Seja como for, uma injecção letal tornou irreversível a aterradora hipótese de vir um dia a provar-se que foi vítima de um engano ou de uma cilada. Evito olhar para a fotografia deste homem, cujo olhar me parece franco e leal. As aparências enganam, eu sei. Por isso mesmo – mas, sobretudo, porque nenhum homem tem o direito de tirar a vida a outro – a pena de morte é inadmissível.»
Fernando Sousa: «Sentou-se, tirou a boina, amarela, pousou-a delicadamente ao lado do teclado, do lado dos graves, e esperou. O padre entrou. E o ar desfez-se em moléculas de música, numa harmonia tão suave que desviou o olhar dos fiéis, atónitos e rendidos, para a cara, sem ponta de emoção, do bebé.»
José António Abreu: «Não entrar num café apinhado de portistas para espreitar o resultado do Porto-Benfica vestindo uma t-shirt vermelha, ainda que sem qualquer relação com o Benfica. Adenda: estudar melhores formas de reagir do que gritando: “Eh pá, mas eu até sou do Sporting!”»
Luís M. Jorge: «Vasco Pulido Valente, unindo a sua voz à voz sempre serena de Medina Carreira, ergueu hoje bem alto a corneta do apocalipse e anunciou-nos o Declínio do Ocidente. Alarmado, fui logo ver como estavam os relatórios da competitividade global em 2011.»
Luís Menezes Leitão: «Tem vindo a ser esse o padrão argumentativo das decisões do Tribunal Constitucional desde a crise financeira, em que o objectivo de obter a redução do défice tem vindo a legitimar sempre a afectação dos legítimos direitos e expectativas dos cidadãos. O Rui A. no Blasfémias pergunta para quê o Estado de Direito. Eu pergunto antes por que não se extingue o Tribunal Constitucional?»
Rui Rocha: «Espero que o Presidente da República preste a devida importância à poda das suas anonas e que não as ponha nas mãos de um habilidoso qualquer. Enfim, o que importa é que tudo corra pelo melhor. Mas, lá que não falta quem faça figuras ridículas por se pronunciar sobre assuntos que não domina, lá isso…»
Teresa Ribeiro: «Encolheu-se, em posição fetal. Quanto tempo faltava para o telemóvel tocar? Nas tintas. A noite já estava perdida, havia que admitir a derrota. Era um dos pensamentos proibidos, admitir a derrota. Abdicar dos seus novos princípios de vida, sabia muito bem, era baixar os braços, entregar-se, desistir, era…zzzzzzzzzzzz»
Eu: «Parecia-me tão grande, a biblioteca, quando eu era miúdo. Pareceu-me hoje mais pequena quando regressei nesta romagem de saudade: mesmo assim, cheia de obras que nunca terei tempo de ler. Sentei-me num cadeirão durante longos minutos, em silêncio, e senti-me um garoto outra vez. À espera que o meu pai chegasse a qualquer momento para me tirar aquele livro lá em cima, da última estante. Estendi o braço mas não cheguei lá.»
