DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Ana Vidal: «Troy Davis está morto. Era inocente, como afirmou sempre, ou era culpado? Talvez nunca venha a saber-se. Ou talvez um dia surjam novas provas. Seja como for, uma injecção letal tornou irreversível a aterradora hipótese de vir um dia a provar-se que foi vítima de um engano ou de uma cilada.  Evito olhar para a fotografia deste homem, cujo olhar me parece franco e leal. As aparências enganam, eu sei. Por isso mesmo – mas, sobretudo, porque nenhum homem tem o direito de tirar a vida a outro – a pena de morte é inadmissível.»

 

Fernando Sousa: «Sentou-se, tirou a boina, amarela, pousou-a delicadamente ao lado do teclado, do lado dos graves, e esperou. O padre entrou. E o ar desfez-se em moléculas de música, numa harmonia tão suave que desviou o olhar dos fiéis, atónitos e rendidos, para a cara, sem ponta de emoção, do bebé.»

 

José António Abreu: «Não entrar num café apinhado de portistas para espreitar o resultado do Porto-Benfica vestindo uma t-shirt vermelha, ainda que sem qualquer relação com o Benfica. Adenda: estudar melhores formas de reagir do que gritando: “Eh pá, mas eu até sou do Sporting!”»

 

Luís M. Jorge: «Vasco Pulido Valente, unindo a sua voz à voz sempre serena de Medina Carreira, ergueu hoje bem alto a corneta do apocalipse e anunciou-nos o Declínio do Ocidente. Alarmado, fui logo ver como estavam os relatórios da competitividade global em 2011.»

 

Luís Menezes Leitão: «Tem vindo a ser esse o padrão argumentativo das decisões do Tribunal Constitucional desde a crise financeira, em que o objectivo de obter a redução do défice tem vindo a legitimar sempre a afectação dos legítimos direitos e expectativas dos cidadãos. O Rui A. no Blasfémias pergunta para quê o Estado de Direito. Eu pergunto antes por que não se extingue o Tribunal Constitucional?»

 

Patrícia Reis: «Só boas notícias para a literatura: Inês Pedrosa ganhou o Prémio Literário Máxima com o livro “Os Íntimos”. Hoje Valter Hugo Mãe celebra 40 anos e lança um livro novo na Lx Factory, livraria ler devagar. No dia 30 de Setembro, às 18h30, na livraria Leya na Barata, teremos apresentação do novo livro de contos de José Eduardo Agualusa, ele que acaba de ser nomeado para o prémio Courrier International com Barroco Tropical. O livro novo chama-se “A Educação Sentimental dos Pássaros”. Tragam o corpo, comprem livros e sorriam, sim?»

 

Rui Rocha: «Espero que o Presidente da República preste a devida importância à poda das suas anonas e que não as ponha nas mãos de um habilidoso qualquer. Enfim, o que importa é que tudo corra pelo melhor. Mas, lá que não falta quem faça figuras ridículas por se pronunciar sobre assuntos que não domina, lá isso…»

 

Teresa Ribeiro: «Encolheu-se, em posição fetal. Quanto tempo faltava para o telemóvel tocar? Nas tintas. A noite já estava perdida, havia que admitir a derrota. Era um dos pensamentos proibidos, admitir a derrota. Abdicar dos seus novos princípios de vida, sabia muito bem, era baixar os braços, entregar-se, desistir, era…zzzzzzzzzzzz»

 

Eu: «Parecia-me tão grande, a biblioteca, quando eu era miúdo. Pareceu-me hoje mais pequena quando regressei nesta romagem de saudade: mesmo assim, cheia de obras que nunca terei tempo de ler. Sentei-me num cadeirão durante longos minutos, em silêncio, e senti-me um garoto outra vez. À espera que o meu pai chegasse a qualquer momento para me tirar aquele livro lá em cima, da última estante. Estendi o braço mas não cheguei lá.»

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