DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Adolfo Mesquita Nunes: «Não consigo precisar qual a minha primeira memória da infância, se é que não é mais importante conseguir coleccionar umas quantas. Mas consigo, com notável precisão, identificar a música que mais facilmente me transporta até lá. Não sei se isso acontece convosco, e se acontece não posso senão convidar-vos a partilhá-la connosco, esta coisa de ter uma música que nos mergulha nos cheiros, texturas e afectos de um tempo que passou mesmo. Eu tenho essa sorte, que nem sempre traz alegrias, de conseguir recuar apenas porque a ouço. Mais do que uma sorte, é uma benção. Aqui está ela, pois.»

 

Ana Lima: «Chamamos-lhe 11 de Setembro. O ano não é mencionado pois sabemos que seja ele qual for continuaremos a estremecer perante a menção desta data e perante a recordação do que estávamos nós a fazer enquanto, em directo de Nova Iorque, as televisões nos mostravam que é sempre possível ir mais além no horror, mergulhar mais fundo na incapacidade de compreender o outro, reconhecer as nossas limitações enquanto seres humanos. Cada um de nós lembra-se desse dia com uma memória precisa pois não nos basta rever as imagens dessa terça-feira que passaram vezes sem conta. Torna-se necessário voltarmos a nós, à nossa escala, para encontrarmos algo que faça sentido. O mal, quando nos ultrapassa, pela sua dimensão, deixa-nos longe das razões, das certezas. Tudo é abalado.»

 

João Carvalho: «Haverá coisa mais básica, mais primária por natureza, mais falha de sentido real do que o pregão «as pessoas estão primeiro»? A falta de ideias só não é triste enquanto não se manifesta.»

 

José António Abreu: «Talvez seja a consciência da morte que nos leva a pensar no passado – é, no mínimo, a sua sombra: o medo do futuro, a percepção súbita de uma enorme fragilidade. Ou então há várias possibilidades e tudo depende de uma escolha – do modo como quisermos definir o que é um adulto.»

 

Laura Ramos: «Políticos perdem pensão acumulada. Dir-me-ão que são peanuts. Mas isto é muito mais do que diminuir a despesa pública. Espero que a revisão das mordomias avance e refunde o valor do exemplo de quem nos representa.»

 

Luís Menezes Leitão: «A insistência do ministro das Finanças em seguir a via grega cabe na definição perfeita do que é um comportamento irracional: adoptar sempre o mesmo procedimento, esperando que ele alguma vez conduza a um resultado diferente.»

 

Rui Rocha: «Nada tenho contra os seres sencientes a que a petição se refere. Mas, não posso deixar de sublinhar, entre outras coisas, o invulgar sentido de oportunidade dos seus subscritores e promotores num momento em que, no nosso país, o serviço público de saúde destinado aos animais humanos está a sofrer graves restrições orçamentais.»

 

Eu: «De 1972 (The Hot Rock) a 2002 (City by the Sea). A ver aqui, numa fantástica montagem de Dan Meth. Três minutos e vinte segundos imperdíveis.»

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