DELITO há dez anos


Pedro Correia,

21523202_SMAuI.jpeg

 

Ana Vidal: «Da minha mesa de canto vejo-o entrar aprumado, digno, ainda bonito. Foi em tempos um homem lindo e muito disputado, segundo me contaram. Já perdeu o viço, mas ainda conserva o porte de quem foi tu-cá-tu-lá com reis e cardeais. Só os olhos parecem pedir desculpa à vida, como se tivesse abusado dela de alguma forma e agora saiba já ser tarde para reparar o erro.»

 

Ivone Mendes da Silva: «É ainda Agosto, ainda há gente de férias: este prédio era, ontem, um veleiro quase deserto a flutuar sobre a avenida. Acordei com um solavanco de movimento e só tive tempo de me alinhar para aparecer sorridente e composta perante a minha vizinha do 4.º andar. Pelas minhas contas,  dormi uns três quartos de hora.»

 

Leonor Barros: «Depois de um breve périplo pela Praça Vermelha para a fotografia da praxe há que rumar ao GUM para se deixar fotografar, noivo, noiva e convidados num número nunca superior a cinco, com a Dior lá no fundo, a Furla, ajudem-me que sou pouco entendida nessas marcas da moda. Sim, os russos gostam da moda, do fausto, da afirmação e da ostentação. Quem diria que poderiam afinal ser parecidos com os portugueses.»

 

Rui Rocha: «Há lugares que parecem feitos para os adoradores do sol. Não é o caso de Esposende. Aqui, celebra-se o vento. É ele o grande organizador dos dias de Verão. É a permanência do vento que nos dá tempo para saborear a pequena cidade. Em tantos dias, é impossível estar na praia. Não são horas perdidas. Praticamente com um pé no Cávado e outro no Atlântico, abrigo-me no Café da Foz, numa plácida disputa entre a contemplação de uma das mais belas paisagens de Portugal e o afago daquele livro que guardei todo um ano para o poder ler naquele exacto momento. É também ali que a angústia do dia-a-dia, por momentos, me toma. Mas, logo  na Foz do Cávado, é a calma que contemplo. Está tanto vento. Esse é o meu sossego. Tenho tempo. O vento, o vento.»

 

Eu: «Nesta Dublin estranha, invadida pela neve, perpassa ainda a evocação de uma paixão atraiçoada pela morte num tempo em que “todos se transformavam em sombras”. Em crescendo, como nos compassos de uma ode musical, o autor conduz-nos aos fulgurantes parágrafos finais que tornam a história verdadeiramente memorável. [James] Joyce, ainda longe de ser o reconstrutor do idioma que seria no seu Ulisses, era já aqui um estilista consumado – mestre na arte dos diálogos e na construção de atmosferas sibilinas.»

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *