DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Ana Lima: «Não há descrições da região do Douro que não falem da dureza do trabalho que teve que ser levado a cabo para construir uma paisagem como a que vemos quando percorremos as margens do rio. Miguel Torga escrevia, num dos textos mais conhecidos: “No Portugal telúrico e fluvial não conheço outro drama assim, feito de carne e de sangue…”. Não que seja sequer comparável mas, até para percorrermos os caminhos, feitos de subidas  e descidas, curvas e curvas e mais curvas precisamos de travar uma batalha, nós que estamos agora habituados às auto-estradas e vias rápidas. Mas, chegados ao nosso destino, sentimos que naquela batalha não houve vencidos pois se é o rio que impõe o seu ritmo ao viajante é este que se sente como se fizesse já parte daquela paisagem.»

 

João Carvalho: «Com efeito, “continua a palhaçada fiscal do show” que a Standard & Poors está sempre disposta a encabeçar para baralhar e dar de novo. A diferença, agora, é que os norte-americanos já não estão a falar do comportamento dos outros, mas sim das agências que têm dentro de portas e que eles se habituaram a alimentar e sobrevalorizar. Pode ser que ainda venham a alargar as vistas sem a cegueira de quem comanda os mercados mundiais, mas antes com o respeito que os outros devem merecer. É bom que o façam.»

 

Eu: «[Cabrera Infante] fala-nos de outras cidades. A britânica Bath, “a cidade mais encantadora da Inglaterra”. San Sebastián, “um espectáculo para ver e voltar”. E tantas outras: Bruxelas, Nova Iorque, Las Vegas, Madrid, Veneza, Rio de Janeiro, Salvador da Baía… À primeira vista, falta Havana. Mas Havana está sempre presente, em todas as entrelinhas. Essa Havana que foi a mais deslumbrante das cidades do antigo império espanhol e hoje vegeta numa amarga decadência, estrangulada pela ditadura castrista. A dor do exílio acabou por matar Cabrera Infante. Mas Miriam Gómez há-de cumprir a promessa que lhe fez: as suas cinzas serão um dia espalhadas pelo chão de Cuba.»

5 comentários em “DELITO há dez anos”

  1. Pedro Correia
    “Estrangulada pela ditadura castrista”, é a sua opinião e tem direito a ela, não a vou contestar.
    Contudo posso acrescentar o Intervalo que vai desde “Essa Havana que foi a mais deslumbrante das cidades do antigo império espanhol.” até Castro. A ditadura de Fulgêncio Baptista que transformou Havana no Bordel dos Estados Unidos da América do Norte, Quartel General das Máfias do mesmo país.
    Tal como eu respeito a sua opinião, espero que aceite este pequeno acrescento, aos factos.
    Zé Onofre

    1. Pergunte ao Pichardo porque fugiu de Cuba. Ele é um dos mais de três milhões de cubanos que conseguiram fugir da ditadura comunista. Quase um terço da população do país. Só não fogem ainda mais porque não podem.

      Quanto a bordel, basta lá ir para se perceber como Havana nada tem de invejar a outras capitais nessa matéria.
      Não admira, pois ao fim de 62 anos de monopólio do Partido Comunista Cuba tem o segundo pior rendimento per capita da América Latina – só o Haiti consegue ser pior.

      1. Tem de consultar a lista do Banco Mundial sobre o rendimento per capita, Cuba está à frente de muitos países da América Latina, eu contei doze.
        O pai do Pedro Pichardo era o seu treinador, que já tinha saído de Cuba e o atleta numa digressão a um meeting à Alemanha resolveu juntar-se ele e não voltar a Cuba. Pedro Pichardo explicou que não voltou por não ter as condições de treino para evoluir e evidentemente sendo o pai o seu treinador ficou na Europa e escolheu Portugal e o Benfica para continuar como atleta e obteve rapidamente a naturalização.
        Cuba com 11, 350 milhões de habitantes soma neste momento 5 medalhas ouro, 3 de prata e 4 de bronze nos Jogos Olímpicos de Tokyo.
        E sobre monopólio do Partido Comunista, a China ganha medalhas para dar e vender, também, assim, sem bloqueios não podia ser outra coisa.

  2. O mundo não é um tratado escrito seguindo uma visão coerente ou maniqueísta. Havana era efectivamente um bordel ao serviço do imperialismo norte-americano, foi libertada pela revolução castrista que em
    seguida degenerou com o forte contributo do bloqueio americano e consequente sovieto-dependência, imperialismo americano que destruiu o Vietname ao mesmo tempo que construía um ocidente próspero e liberal, e que desenvolvia como raras vezes na história humana um impressionante
    esforço científico. Há muito pouca moralidade nisto (na liberdade, abertura de horizontes intelectuais, guerras e perseguições). Não é para justificar uns ou outros, é para não olhar para tudo isso como se estivéssemos detrás de uma trincheira prontos a disparar para matar com o pretexto de termis a responsabilidade do mundo na nossa espingarda.

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