
Ana Margarida Craveiro: «Perdoem a publicidade institucional, mas parece-me uma boa oportunidade para uma discussão menos mitológica.»
Eu: «Nos longos dias de Verão, quando muitos dos que aqui trabalham vão de férias, percebemos melhor como Lisboa está a transformar-se numa cidade povoada por velhos. Os jovens são cada vez mais empurrados para a periferia, tornando o centro da capital um domínio praticamente exclusivo de gente idosa, que quase nem sai à rua e se limita a espreitar o mundo pelo ecrã da televisão ou por um olhar furtivo à janela. Entre os recenseamentos de 1981 e 2001, Lisboa perdeu 20 por cento da sua população fixa. Há ruas onde não mora ninguém. E tudo isto, que devia ser tema de intenso debate público, parece não espantar ninguém. “On s’ habitue, c’est tout”, cantava Jacques Brel numa das suas mais belas canções. É isso mesmo: vamo-nos habituando à invasão do insólito no nosso quotidiano e já não estranhamos rigorosamente nada.»

Nos longos dias de Verão, quando muitos dos que aqui trabalham vão de férias, percebemos melhor como Lisboa está a transformar-se numa cidade povoada por velhos.
Isto era há dez anos. Hoje está muito melhor. Há muitos jovens, sobretudo estrangeiros, sobretudo franceses, a viver em Lisboa. Há atualmente um movimento bastante substancial de juventude em Lisboa. Mas são em boa parte estrangeiros.
Hoje está pior ainda. Como é óbvio.
Para mim o óbvio é o oposto.
Dê o Pedro Correia um passeio à tarde ou fim da tarde pelo jardim do Torel, pelo jardim Braancamp Freire, ou pelo jardim da Cerca da Graça, e verá o que eu digo: magotes de jovens, em grande parte estrangeiros, que residem, quiçá temporariamente mas em todo o caso residem, em Lisboa.
Estudantes Erasmus, na grande maioria. Tudo gente de passagem.
Acredito que sim, que boa parte deles sejam estudantes Erasmus. Mas não importa, são em todo o caso residentes de Lisboa, ainda que temporariamente, e dão-lhe muita vida.
Mas não são somente estudantes Erasmus. Há atualmente montes de outras pessoas razoavelmente jovens a residir em Lisboa, que há dez anos não estavam cá. Brasileiros, franceses, italianos, nepaleses, sobretudo, pelo que vejo. A título de exemplo, o prédio em que resido tinha há dez anos metade dos apartamentos livres; atualmente estão todos ocupados.
Há ruas onde não mora ninguém.
Há em Lisboa muitas ruas extremamente declivosas (algumas são mesmo escadarias), onde de facto não se entende como alguém pode morar, tal é o nível de desconforto que oferecem. Mas, no entanto, mesmo nelas ainda mora alguém.