
Rui Rocha: «As eleições de 1958 tiveram, como se sabe, Humberto Delgado e Américo Tomás como protagonistas principais. O que já muitos não saberão é que não foi apenas o resultado final das eleições que foi condicionado pelo regime. Na verdade, o próprio recenseamento eleitoral estava longe, na prática, de abranger o universo dos potenciais eleitores (em 1974 o número de eleitores recenseados não chegaria a um milhão). Outro aspecto surpreendente, aos nossos olhos, é o de os boletins de voto não estarem disponíveis nas assembleias eleitorais, mas serem previamente distribuídos pelos eleitores. Como seria de esperar, o regime assegurou a impressão e a distribuição, porta a porta, pela GNR e pela PSP, dos boletins de Américo Tomás. A tarefa de imprimir os boletins de Humberto Delgado foi bem mais complicada.»
Eu: «Existe algo a que possamos chamar o conto mais belo de sempre? Sim: é um texto que só nos fala de ilusões. Foi escrito por um americano apaixonado por Espanha e passa-se em Madrid, num dos anos mais funestos de que há memória. É um impressionante retrato de um país que não tardaria a mergulhar num dilacerante conflito cujo rasto perdura. Falo de um conto intitulado A Capital do Mundo (ed. Livros do Brasil), que Ernest Hemingway publicou em Junho de 1936, já entre presságios da guerra civil. Toda a acção decorre no espaço fechado de uma pensão na calle San Jeronimo, perfeito microcosmos de uma Espanha em convulsão.»

os boletins de voto não estarem disponíveis nas assembleias eleitorais, mas serem previamente distribuídos pelos eleitores
Interessante que isto ainda se fizesse assim em 1958.
Essa era a prática na Primeira República, e facilitava muito o caciquismo.