DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Bandeira: «Opinião é um preconceito embrulhado para oferta.»

 

Inês de Barros Baptista: «há quem veja o milagre como uma prece ouvida por Deus, eu diria que é antes Deus expressando-se em nós. durante anos e anos fizeram-nos crer que era Deus lá em cima no céu e nós cá em baixo na terra e que re-ligar uns e o outro exigia a uns sacrifícios e ao outro misericórdia – para além de uma série de dogmas com que se disciplinaram as práticas religiosas, um pouco por todo o mundo. nunca estivemos tão longe de podermos ser um e o mesmo como durante estes tempos, em que acreditámos que o céu e a terra não eram um só e que a redenção era a promessa divina para a resistência  ou mesmo a recusa aos pecados humanos.»

 

Laura Ramos: «Olhava-o e ficava siderada. Por tudo o que via. Mas sobretudo por tudo o que não via. Arrancava-a do sério. De um lado era a aparência, a charla, o encanto; e os olhos atlânticos. Do outro, o impossível crivo de virtudes mentais, o intangível nervo da racionalidade, a eficiência instantânea, mas discreta. O longo treino no ser, a mestria no estar.»

 

Luís M. Jorge: «Eram os dias mais felizes da vida dela — uma vida difícil, com um marido exigente. Certa tarde, enquanto visitavam o panteão, Augusta sentiu uma grande ternura. Encheu-se de coragem, aproximou-se dele timidamente e quis beijá-lo no rosto — mas Titó, de olhos marejados, resistiu-lhe.»

 

Rui Rocha: «Mais uma vez, [Luís] Amado ensaia um movimento em que se afasta da responsabilidade própria de um membro do actual Governo para se aproximar de uma posição de neutralidade, comprometida apenas com o interesse do país. O problema é que essa basculação periódica nunca evoluiu para um lance de ruputura. E isso coloca Luís Amado no lado errado do dilema moral que paira sobre o jogo que está verdadeiramente em disputa. Aquele em que obrigam os portugueses a escolher entre a mentira ou a sua consequência.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Novas tecnologias com sistemas obsoletos, computadores velhos e falta de capacidade de resposta dos serviços só servem para criar mais problemas, gastar dinheiro, indispor os funcionários e os contribuintes, contribuir para a diminuição da produtividade e fazer figura de rico nas estatísticas.»

 

Eu: «Li há dias, no diário de distribuição gratuita Destak, uma das manchetes mais extraordinárias dos últimos anos na imprensa portuguesa: “Paralisações no Metro parecem ter vindo para ficar”. Eis um significativo sinal desta época em que tanto se vive de aparências: parecer equivale a ser. Noutros tempos, em qualquer outro jornal, uma frase destas jamais seria título – e muito menos surgiria em manchete, que é o título principal de qualquer periódico. Eram tempos um pouco mais exigentes. Hoje de qualquer coisa se faz um título, não importa o quê. E de qualquer folha de couve se faz algo capaz de se chamar jornal.»

2 comentários em “DELITO há dez anos”

  1. 1 – Um embrulho ofertado em modo de opinião nunca nos esclarece o preconceito que embrulha.

    2 – A redenção é promessa enquanto proposta. Uns querem-na pelo preço mais baixo; outros ainda rejeitam-na; e outros mais fazem dela um custe o que custar para que se realiza a promessa.
    O milagre é um fenómeno extraordinário e a cura é ordinária enquanto antecipação do tempo. O milagre garante a eternidade, em unidade; e a cura torna-se efémera. Quem cura o que está ferido nem sempre cura o que fere. A ferida cura-se com tratamento e o tratamento da ferida e do que fere é a misericórdia. Se não houver misericórdia a ferida não sara e o que é ferido ferirá de igual modo.
    A prece por um inimigo é em si mesma prece para quem a faz. Porque quem faz a prece pelo inimigo recebe a unção para que não responda ao inimigo como ele age. O olho por olho é lei de talião e a misericórdia é a lei da libertação.

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