DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Ana Vidal: «O “país à rasca” está na rua, literalmente. Na rua, onde foi posto pela empresa, pelo senhorio, pelo banco, pelo hospital. Mas, sobretudo, na rua pela incompetência, abuso e falta de vergonha de quem o tem governado. Até a habitual apatia dos portugueses parece ter chegado ao fim, in extremis.  E alguém se admira? Tristes tempos estes, em que se prolonga a vida para depois se morrer de fome, de abandono, de carência. Estes em que caminhamos sem norte, mas a “alta velocidade”, para o abismo. Estes em que, como li por aí um dia destes, o fim do mês assusta mais do que o fim do mundo.»

 

João Campos: «Parece que o Governo vai introduzir mais medidas de austeridade – um “pacote de estrangulamento, ou algo assim” – sem falar com a Assembleia da República e sem dar cavaco ao Presidente. Parece que Sócrates, o nosso primeiro-animal-feroz, considera que não tem de o fazer. Talvez tenha, talvez não tenha, não sei. Mas não foi em 2004 que um Presidente atirou um Governo maioritário pela janela por muito menos?»

 

Laura Ramos: «Quanto nós precisávamos de ter muitos discípulos de Amartya Sen, que nunca se desgarrou dessa ideia nuclear e anti-determinista de liberdade na escolha, de desenvolvimento inteligente e de progresso útil, à escala do Homem.»

 

Paulo Gorjão: «Hoje, pela primeira desde que José Sócrates foi eleito (que eu tenha reparado), houve dois editoriais — jornais i e Diário Económico — em que se assumiu explicitamente que não se sairá da crise em que estamos sem novas eleições e estas são fundamentais para iniciar um novo ciclo. A maré já mudou há algum tempo na opinião pública e começa a chegar agora à opinião publicada. Água mole em pedra dura…»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Vi de tudo. Bloquistas, skinheads vestidos a rigor, sindicalistas da CGTP, meninas das “famílias numerosas” exibindo a respectiva prole, arrumadores, membros de claques, estudantes, desempregados, os Homens da Luta, reformados, reconhecidos ociosos, deputados, patuscos, e até simples arruaceiros. Também ouvi de tudo. Frases sem nexo, algumas repetidas várias vezes diante das câmaras do tipo “abrem os olhos” (sic), outras como “governo rasca, geração à rasca” e “não fui ao centro de emprego porque aquilo é uma perca de tempo”. Frases que misturavam milhões e tostões, muitos gritos contra a precariedade, os banqueiros e os políticos, canções de intervenção e batucada. Também havia uns tipos com idade para serem meus avós aos saltos e a gritarem “quem não salta é do Governo”. Muitos lenços árabes, alguns enfeitando os cães “desfilantes” e os respectivos donos. Muita gente.»

 

Eu: «O ministro das Finanças chamou os jornalistas a pretexto de fazer um balanço da aplicação das medidas do PEC. Foi um truque barato, que diz tudo sobre a falta de sentido de Estado do governo ainda liderado por José Sócrates. Afinal o que Teixeira dos Santos tinha para anunciar – sem uma comunicação prévia ao Parlamento, sem sequer deixar cair uma palavra junto do Presidente da República – era outro pacote de “medidas de austeridade”, incluindo um agravamento da carga fiscal, destinado a penalizar ainda mais o que resta da frágil classe média portuguesa.»

Um comentário em “DELITO há dez anos”

  1. Há mais de dez anos a “nossa direita” tecia loas ao 1º ministro da altura e depois foi o que viu, sentiu, sabe e alguns ainda recordam nomeadamente nos dias de “hoje” em que por linhas travessas a história se repete.

    WW

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