DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Ariel: «Quem é que me consegue explicar que, depois de termos andado durante vinte anos a consumir que nem drogados, estimulados pelo crédito baixo que nos ofereciam na caixa do correio, em telefonemas simpáticos dos gestores de conta a propor financiamento já, às campanhas agressivas dos cartões de crédito, ao crédito para férias (goze agora e pague depois) e de terem atascado a classe média em dívidas para a banca ganhar bom dinheiro, nos vêm agora desalmadamente apelar ao desmame? Sim, meus senhores: afinal, de quem é a culpa? Nossa, pobres desgraçados assalariados da classe média?»

 

Fernando Sousa: «Os astros aconselham os nativos [de Caranguejo] que não se isolem nas suas lutas, que preservem o bom humor e que tenham cuidado com o que dizem para não magoar ninguém. A carta do mês é o Louco, que significa excentricidade. Na astrologia chinesa, quem nasceu em 1939, ano do Coelho, viverá os próximos doze meses no meio de grande tranquilidade.»

 

João Carvalho: «(Estamos num país livre, mas não se pode ir à Brandoa, nem à Pontinha, nem ao Colégio Militar. Porém, o mais importante é o sinal que está por baixo, de fundo verde. Parece que é para recuar. «Preços e impostos a subir! Salários, reformas e direitos a descer!» Exactamente, é um sinal de recuo obrigatório.)»

 

Teresa Ribeiro: «Antes de deitar mão ao comando da tv faz zapping pelas paredes e móveis da sala, demorando-se nos objectos que mais aprecia. Suspira feliz por não ter a vida da Bibi e atira-se aos canais da televisão antes mesmo de começar a despir-se. Quando descobre por entre anúncios de desodorizantes e noticiários requentados o rosto de Vivien Leigh, larga o comando e aninha-se, ainda descalça e de sobretudo, no sofá. Num reflexo pavloviano procura a caixa dos lenços de papel e já completamente esquecida da sua amiga Bibi prepara-se para mais uma vez se desfazer em lágrimas com a cena final de E Tudo o Vento Levou.»

 

Eu: «Ontem à noite, na RTP N, escutei dois “analistas políticos” comentando durante longos minutos a campanha eleitoral no espaço habitual que o canal público alojado no cabo costuma reservar para este efeito. Joaquim Aguiar e Manuel Loff – os analistas a que me refiro – “debatem a actualidade política”, lia-se em rodapé no ecrã. Em lado nenhum era referido que qualquer deles é parte muito interessada no debate das presidenciais. Joaquim Aguiar integra a Comissão Política de apoio à candidatura de Cavaco Silva. Manuel Loff é apresentado, na página do PCP na Net, como um dos apoiantes de primeira hora do candidato presidencial Francisco Lopes. Acontece que naquele momento, perante os telespectadores, nenhum deles foi identificado – ao contrário do que as boas normas exigiriam – como comentador alinhado. Sugerir  que possam ser analistas isentos em plena campanha oficial para as presidenciais, a cinco dias do voto, é servir gato por lebre – facto ainda mais lamentável por ocorrer num canal público.»

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