DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Bandeira: «O fantasma de Mozart apareceu um dia a Schubert. Ambos falavam alemão, mas apesar disso cada um entendia o que o outro dizia. E ao cabo de algumas horas de boa conversa, Wolfgang perguntou ao colega: “Não tenho mãos para o fazer eu mesmo; escreverias uma sinfonia por mim?” Soubesse Schubert que morreria ainda mais novo do que Mozart e talvez não tivesse dito que sim.»

 

João Campos: «Não deixa de ser divertido ver estas palavras saírem da campanha de Alegre. Convém recordarmos que Alegre é apoiado pelo PS (a contragosto, porventura, mas isso não importa aqui), e que, até à data, o único Presidente que de facto “esteve ali assim a derrubar Governos” foi… Jorge Sampaio, do PS. E seis anos volvidos, ainda ninguém percebeu muito bem porquê (se calhar nem Sampaio o sabe). Tivesse Cavaco seguido a lógica do seu antecessor, e Sócrates teria caído com o escândalo da licenciatura.»

 

João Carvalho: «Em 1913, a 5.ª Avenida já tinha um trânsito impressionante. O aspecto nostálgico desta Nova Iorque nos primórdios de Novecentos lembra Henry Ford, que revolucionou a indústria e popularizou os preços das máquinas loucas da época com o seu célebre modelo T, o primeiro automóvel produzido em série graças à concepção de uma linha de fabrico e montagem. “O cliente pode ter o carro da cor que quiser, desde que seja preto” — ironizava Ford, com o intuito de controlar o preço do carro reduzindo o supérfluo.»

 

Luís M. Jorge: «Numa década e meia Portugal elevou dois homens a heróis — Saramago e Mourinho, o escritor e o treinador — mas só um dominou a sua autoridade simbólica, e fascina-me que não tenha sido o escritor. Saramago manteve com a pátria uma ligação azeda, quezilenta, despeitosa, repleta de amuos e sublevações de porteira. Mourinho reconciliou-a com três patacoadas em língua portuguesa.»

 

Luís Menezes Leitão: «Um dos exercícios mais inúteis a que as pessoas habitualmente recorrem é a contínua subscrição de petições aos órgãos de soberania. A Constituição reconhece expressamente no seu art. 52º o direito de petição, prevendo inclusivamente a possibilidade de algumas petições serem apreciadas no plenário da Assembleia. No entanto, não me recordo de um único caso de uma petição que alguma vez tenha sido convertida em lei. Normalmente o que sucede é que a Assembleia reserva uma sessão para a discussão das petições que têm votos suficientes para subir a plenário, onde as mesmas são indeferidas em catadupa, assim se esvaziando a iniciativa popular.»

 

Rui Rocha: «É evidente que a intervenção do FMI, ou outra equivalente, será sempre negativa por certificar um falhanço da gestão do país e implicará decisões discutíveis e dolorosas. Que não oferecem sequer a garantia de sucesso. O que está em causa, todavia, é determinar, do ponto de vista da análise de risco e probabilidade, em que exacto ponto o custo da intervenção passa a ser menor que o custo da não intervenção. Se esse ponto for ultrapassado, não se deve hesitar em pedir ajuda. A decisão terá sempre que incluir a participação do Governo. E este é, em minha opinião, um dos dramas da situação. Pessoalmente, não reconheço ao Governo competência para gerir o país, nem isenção para fundamentar essa decisão na racionalidade. Lamento, mas o histórico recente da governação não é culpa minha. E leva-me a concluir que Sócrates privilegiará o seu interesse pessoal sobre o do país, como já fez no passado.»

 

Teresa Ribeiro: «Estou há oito dias sem frigorífico. Desde que reportei a avaria, a marca e a loja onde o comprei jogam ao ping pong e eu a ver. De cada vez que lhes telefono, a pressionar, acolhem-me com a polidez estandardizada que o controlo de qualidade do atendimento lhes exige (a cada chamada uma gravação informa-me que a conversa será registada) mas desse código verbal escapam pausas e evasivas bem mais eloquentes, que me indicam com rigor que a única pessoa que está verdadeiramente interessada em resolver a situação sou eu. Já telefonei para o Instituto de Defesa do Consumidor e pouco posso fazer senão esperar, calmamente, que a burocracia, a inépcia e o desinteresse desatem este nó, pequeno mas intrusivo, pois estar oito dias sem frigorífico é um transtorno.»

 

Eu: «Defensor Moura levou os jornalistas a um centro que acolhe jovens deficientes. Certamente nenhum vota a 23 de Janeiro, mas isso não inibiu alguns repórteres de lhes revelar os rostos e recolher declarações de vários deles. Nada que incomodasse o candidato que vive em Viana do Castelo. Depois disso – pasme-se – Moura “deu um passeio improvisado na rua onde mora”, registou a arguta reportagem televisiva. Facto extraordinário. Só faltou esclarecer se levava algum cãozinho pela trela.»

3 comentários em “DELITO há dez anos”

  1. Gostaria de saber como se (não) resolveu o problema da Teresa Ribeiro com o frigorífico. Será que ela me pode informar?

  2. Obrigada pela preocupação, mas isso já lá vai. Se repararem, neste post fazem-se transcrições de texto que foram publicados no Delito de Opinião há dez anos.
    A questão resolveu-se, mas não sem prejuízo. Tive de deitar alimentos fora…

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