DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Bandeira: «”Sou uma mulher simples, mas não sou cega nem surda, Manel. É essa moça da cidade que veio morar aqui para a aldeia. Está fazendo de ti um tonto.”

O pastor afundou-se um pouco mais na samarra.

“Não digas disparates, Dores.”

“Estás vendo? Já nem pronuncias o –e em posição átona final como –i.”

“Tolice. Estou chupando uma azeitona.”

“E o –i em lugar do –e pretónico? E a ditongação de –e em –ei?”

Manel dobrou-se devagar e aconchegou as achas da lareira, tentando ganhar um pouco de tempo. Como não se apercebera que andava ditongando o –e?»

 

Fernando Sousa: «Aguçava o lápis para me juntar aos meus novos companheiros do DELITO DE OPINIÃO quando me caiu debaixo dos olhos um texto de Eduardo Galeano. E ia tão mais além do que imaginava dizer, e além disso tão perfeito, que o troquei pelo meu. Se nascemos incompletos, não estamos terminados – escreve o prosador uruguaio, em jeito de votos para 2011. Neste sentido, um ano cheio para todos.»

 

João Carvalho: «O comunista Francisco Lopes aproxima-se perigosamente do pensamento de dez milhões de portugueses, ao dizer que quer Portugal “a produzir e a exportar mais” e que “é preciso valorizar o factor trabalho”. Quando e onde é que ele fez tais declarações? Ontem, numa visita à Aquinos, a maior fábrica de sofás da Europa. Não se confirma que Francisco Lopes estivesse a falar em trabalho confortavelmente sentado.»

 

Laura Ramos: «Afinal, não temos desculpa. Ou por outra –  e como eu sempre digo -, quem o elegeu não tem perdão. Algures, lá atrás, José Sócrates teve um vislumbre de auto consciência, quiçá um último lampejo de verdade, antes de se lançar no terrível lago de Narciso, encantado pelo reflexo de si próprio.»

 

Maria João Caetano: «Depois do almoço estacionávamos o carro no parque dos Restauradores e íamos à Baixa, ver as novidades da Lojas das Meias e da Casa Africana, entrar na Charles, percorrer os corredores labirínticos dos Porfírios, comprar tecidos e linhas para bordar em lojas pequenas de cheiro a naftalina e senhoras com troço na cabeça, andar nas escadas rolantes do Grandella e, no Natal, passar horas a olhar para os bonecos que se mexiam nas montras dos armazéns. Gente aos encontrões nos passeios. Os pedintes (na minha terra não havia pedintes). A mão do meu pai, firme, a agarrar a minha. Vem cá, não te afastes, não atravesses, não corras. Lanchar na Suíça ou na Confeitaria Nacional e voltar para casa, fugir do trânsito, dos carros e dos autocarros, das buzinas e daquele cheiro a tubos de escape e alcatrão. Adormecer no carro. Tomar banho. Livrarmo-nos do pó que se entranhara no cabelo e na pele. Não se pode gostar de uma cidade que nos faz macacos pretos no nariz, pensava. Mal eu sabia ainda.»

 

Rui Rocha: «A vida doméstica beneficia muito com a presença de uma Fada do Lar. É muito importante que esta saiba varrer. Para debaixo do tapete. Que aspire. Quaisquer turbulências. Que limpe o pó e a sujidade entranhada: Pronto e já está. Que trate da roupa suja. Sobretudo da delicada. Lavar, enxaguar e, em sendo o caso, branquear. Que mude as camas. Em que alguns não se querem deitar. Que cuide das crianças. Logo desde o berço onde repousam nas Fronhas do Nascimento. Que saiba fazer grandes e pequenos arranjos (arranjinhos).»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Noutras circunstâncias os números 2 e 4 desta resolução n.º 1/2011 seriam perfeitamente despiciendos. Mas numa terra de chicos espertos têm de sair em Diário República. Este é mais um custo que temos de pagar. Os outros saem-nos do bolso. Este é mais do domínio da vergonha.»

 

Teresa Ribeiro: «Tentou concentrar-se no que ele dizia, mas o que ele dizia não era assim tão interessante. Além disso a voz não ajudava. Impaciente, mais com ela própria do que com ele, traçou as pernas, afivelou o seu melhor sorriso e esperou que a mímica a ajudasse a alinhar o seu espírito, sempre tão rebelde, pelas suas necessidades mais prementes. Procurou-lhe no rosto os traços que tanto a tinham interessado, meses antes, quando o conheceu no facebook. Os olhos a lembrar os do Ralph Fiennes, embora sem aquele magnetismo, a boca breve, como gostava nos homens. Duas características que durante muito tempo lhe chegaram para incendiar a imaginação, quando dele não tinha mais nada.»

 

Eu: «Por uma vez, um empate. Duas figuras tão diversas como a chanceler alemã e o fundador da WikiLeaks foram as mais votadas pelos membros do DELITO. Angela Merkel, com a sua Alemanha a recuperar em tempo de crise generalizada no Velho Continente, é cada vez mais a Senhora Europa. Julian Assange, o australiano que veio da Net, pôs todas as chancelarias mundiais em sentido com as suas revelações on line.»

3 comentários em “DELITO há dez anos”

  1. Dez anos depois, saber-se-á hoje (?) se Assange é extraditado para os EUA a fim de ser aí julgado. Rocambolesco, é o mínimo que se pode dizer.

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