DELITO há dez anos


Pedro Correia,

21523202_SMAuI.jpeg

 

Eufrázio Filipe: «Antes de chegar às galerias, identificaram-me com um sorriso. Subi no magnífico elevador, conduzido por um delicado polícia. Sentei-me nas galerias e olhei para baixo. Lá estavam os representantes da nação. Os eleitos da República. As palavras cruzadas, as ideias esgrimidas, as bandeiras nas lapelas, os passos perdidos, os aparelhos políticos. Os credos e os farsantes. Desiguais.»

 

Leonor Barros: «E os sonhos de que são feitos? Penso nisso enquanto o dia se aconchega na noite e a tarja de mar prateado cintila lá longe pela janela da cozinha. Será Natal do outro lado do mar? Um tacho, claro, largo, como todos os tachos, preto e pesado, naturalmente. Um copo de leite, uma pitada de sal, uma colher bem cheia de manteiga. Manteiga, jamais margarina. Deixar ferver sob olhar vigilante. Os sonhos são caprichosos, qualquer desvio pode derrotá-los ainda meninos. Retirar do lume. Acrescentar a medida do leite em farinha. A tarja de mar desaparece-me no horizonte entretanto. Levar ao lume outra vez e envolver vigorosamente todos os ingredientes com uma colher de pau, enquanto o calor se encarrega de os ligar. Deitar para um recipiente largo e, quando começar a arrefecer, ir juntando ovos inteiros: um, dois, três, quatro, cinco, seis. Os ingredientes de que os sonhos são feitos devem abundar em quantidade e qualidade, é sabido.»

 

Luís M. Jorge: «O Mesa Marcada consultou os especialistas e estes, graças a deus, não se armaram em franciscanos. Há dois ou três representantes da alta cozinha low cost (que, valha a verdade, não é alta nem low), mas os outros ainda conseguem preservar algum hedonismo, complacência e saúde mental. A lista completa está aqui.»

 

Rui Rocha: «Pronto. Cá está o dia mais pequeno do ano. Agora, é sempre a aumentar: o IVA, o IRS, a contribuição para a Segurança Social dos trabalhadores independentes, os descontos dos funcionários públicos para a Caixa Geral de Aposentações, os transportes, a electricidade, as portagens, o desemprego e a pobreza. Estou a esquecer-me de alguma coisa?»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Há dois coisas que me deixam completamente sem jeito: a falta de saúde e mudanças. A primeira nem sempre depende de nós. A segunda tento encará-la como algo de positivo, independentemente dos contratempos que nos causa, a começar pela mudança de configurações do computador e do pó que se levanta quando se muda uma estante.»

 

Eu: «Aníbal Cavaco Silva, que há cinco anos jurou defender a Constituição, garantiu esta noite aos portugueses que Portugal não é um país totalmente independente. Há qualquer coisa de paradoxal nesta declaração: um dos deveres do Chefe do Estado consignados na lei fundamental é garantir a independência nacional.»

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *