DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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António Nogueira Leite: «O que agora mais me preocupa é a gestão do futuro. E para gerir o futuro não basta um Pantagruel de medidas económicas. É preciso perceber não só o que vai estar à vista (o desemprego, as falências, a miséria, o deslaçar de muitas das estruturas que ainda hoje funcionam) mas também o que vai estar escondido. Dentro de cada um e dentro dos círculos sociais mais íntimos: a angústia, o desespero, a frustração, a incerteza e, também, o ódio.»

 

João Carvalho: «’Bora lá aos matrecos. Ou será às matrecas? Aproveitem este Natal, porque às tantas, no próximo ano, ainda acaba por ser obrigatório ter equipas mistas por quotas: uma Barbie para cada dois Ken. A tal “paridade” à portuguesa, mais conhecida por ménàge à trois.»

 

Rui Rocha: «A entrega do Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento/2010 (não) ocorrerá amanhã em Estrasburgo. Mais uma vez, a cadeira do galardoado não terá quem se sente nela. Guillermo Fariñas, 48 anos, psicólogo, jornalista independente e dissidente político (ou deveríamos dizer democrata?) fez 23 greves de fome ao longo dos anos, como forma de protesto contra o regime cubano. Não foi autorizado a deslocar-se à cerimónia (…). A  ausência de Fariñas demonstra que em Cuba, em rigor, nada mudou. A mão de ferro castradora calçou umas luvas que lhe dão um ar mais polido e arejado. No essencial, o regime arroga-se ainda um poder de sentido único: aquele que é (im)próprio do carcereiro da liberdade dos cubanos.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Eu não tinha dúvidas de que era só uma questão de tempo até que nos lupanares madeirenses se voltassem a ouvir as vozes daqueles que acusam o governo da República de “roubar a Madeira“. Mas é claro que depois de ouvir um magistrado dizer nos telejornais que também era “roubado”, já ninguém estranha que o régulo-mor volte a sacar do seu melhor vocabulário e comece de novo a insultar todos aqueles que lhe vão pagando para que possa manter o sebo no sítio. O seu e o dos seus confrades partidários.»

 

Teresa Ribeiro: «- Já leste isto? Metade das vagas que são oferecidas nos centros de emprego ficam por preencher.

– Sim, mas diz aqui que são empregos em que se fica a ganhar menos do que se recebe de subsídio de desemprego.

– Estás a ver? É a subsídiodependência no seu melhor.

– Subsídiodependência, nada. As pessoas recusam estes empregos porque com o que ganham ficam abaixo do limiar de pobreza.

– E achas que não conseguem viver com isso?

– Tu, conseguias?

– Eu, não. Mas essas pessoas, se quiserem, conseguem.»

 

Eu: «No domingo à noite, certamente sem a mínima intenção de ofender, Júlio Magalhães perguntou a Marcelo Rebelo de Sousa se “ainda tem” planos para o futuro. O professor, que estava a ser confrontado inesperadamente com o tema em directo na TVI, a propósito do seu 62.º aniversário, admitiu que sim, sem se mostrar melindrado. Mas pus-me a pensar como esta pergunta, só pelo facto de ter sido feita num país onde a esperança de vida é cada vez maior, revela bem como andamos obcecados com o culto da juventude e da novidade – como é evidente, desde logo, nos ecrãs televisivos, onde os cabelos grisalhos de Marcelo são uma excepção à regra.»

Um comentário em “DELITO há dez anos”

  1. Dentro de cada um e dentro dos círculos sociais mais íntimos: a angústia, o desespero, a frustração, a incerteza e, também, o ódio.

    Exatamente. É isto tudo que, potencialmente, terá sido causado pela forma ditatorial como o governo enfrentou a epidemia.

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