
Ana Vidal: «É uma hospedaria de luxo, vou já avisando os incautos. Mas oferece, simpaticamente, “condições especiais para poetas vivos”. Os mortos, já se sabe, há muito que se hospedaram por lá à borla. À borla? Não, não é bem assim. Pagam a cama, mesa e roupa lavada com o supremo requinte das palavras com que maravilham os novos hóspedes. Experimente passar por lá. Não precisa de reserva prévia, é só chegar e pousar as malas. Boa estadia.»
Bandeira: «Um Homem Seguro de Si passeava pela avenida e pensava para com os seus botões: “Um Arquitecto Famoso desenhou-me a casa; um amigo, Designer de Interiores, mobilou-ma; visto apenas a roupa que um Estilista Premiado desenha para mim e não como senão em restaurantes aconselhados pelo meu mordomo. Sou finalmente uma Pessoa de Bom Gosto”.»
Rui Rocha: «Bons tempos esses em que os portugueses eram vistos como hábeis comerciantes das mais diversas mercadorias. Todas muito úteis. O Senhor Oliveira da Figueira dos nossos tempos é o Ministro Teixeira dos Santos. O único produto que tem para vender é dívida e os seus clientes de eleição são chineses. Nas conversações, o nosso caixeiro-viajante irá certamente apresentar felicitações ao homólogo chinês pela atribuição do Prémio Nobel a Liu Xiaobo. A propósito, alguém me pode dizer em que exacto momento a dívida soberana passa a subordinada?»
Sérgio de Almeida Correia: «Quem demonstra genuína preocupação com a pobreza e ganhou esta massa toda com a valorização das acções da SLN e do BPN, graças aos bons ofícios dos homens que sem o cavaquismo nunca seriam alguém, pelas declarações que vai fazendo deve querer agora entregar a quem precisa o que ganhou num mercado desregulado. Ao Banco Alimentar ou a qualquer outra congénere que não consegue donativos em quantidade suficiente para dispor de uma parte para jogar na bolsa. A hipocrisia devia ter limites.»
Eu: «Dois poetas. Dois espíritos superiores que andam escandalosamente esquecidos. Morreram há 32 anos, com um intervalo de poucas semanas: Jorge de Sena (1919-1978) e Ruy Belo (1933-1978). Inconformistas, ambos exilados – um no exterior, outro no interior. Sem grupos ou capelinhas, habituados a arremeter contra ventos e marés. E acima de tudo dois excelentes poetas – do melhor que tivemos, não apenas no século XX mas em toda a história da literatura portuguesa.»
