
Ana Margarida Craveiro: «Na blogosfera da cozinha, encontramos gente que faz comida porque gosta. Porque chega a casa, e tem prazer a fazer uma refeição em condições, à moda antiga. Eu confesso que também sou assim: cozinhar relaxa-me, dá-me gosto, e nada sabe melhor do que ver o resultado desses minutos ou horas na satisfação dos outros. A cozinha é para os outros, e acho que somos uma sociedade tanto mais forte quanto mais valor dermos a estas pequenas coisas.»
Ana Sofia Couto: «Nas primeiras páginas, o poeta, aproveitando o exemplo de Santo Agostinho, que sabia o que era o tempo até começar a pensar na pergunta “o que é o tempo?”, diz que o conhecimento da poesia pode significar a impossibilidade de definir “poesia”. No entanto (ou por isso mesmo), o que [Jorge Luis] Borges escreve, com a ajuda de outros que também se dedicaram ao ofício, é um modo de reagir a essa impossibilidade. O resultado é um livro extraordinário.»
André Couto: «O actual bastonário da Ordem dos Advogados, agora reeleito por mais três anos, é como Saldanha Sanches era: um dos bons, um dos corajosos, um dos poucos sem medo de dizer o que tem de ser dito, quando tem de ser dito! É senhor de uma postura ímpar que faz cada vez mais falta nos dias que correm. (…) Espero que agora os Velhos do Restelo se remetam ao silêncio. O tira-teimas não deixou margem para dúvidas. Parabéns e força para António Marinho Pinto!»
João Carvalho: «Reunidos em Bruxelas, «os 16 ministros das Finanças da zona euro acabam de aprovar um auxílio financeiro de 85 mil milhões à Irlanda.» Parece que Teixeira dos Santos até quis doar logo uma nota de dez euros que levava na carteira para demonstrar aos mercados que a situação de Portugal nada tem que ver com a da Irlanda. Um gesto de amor que foi impedido de fazer por estar sujeito a um Orçamento de austeridade e não ser abrangido pelo regime de excepção (vulgo de adaptação) aos cortes salariais.»
Teresa Ribeiro: «Foi Saramago que disse um dia que “a nossa única defesa contra a morte é o amor”. Quando vemos José e Pilar expostos nas minudências do quotidiano, placidamente instalados um no outro, percebemos a dimensão desta frase. Percebemos igualmente porque, sendo ele ateu, se sai com aquele repto: “Encontramo-nos noutro sítio.” Finalmente, entendemos também porque escolheu o escritor para morada aquela ilha espanhola tão inóspita. Quando Miguel Gonçalves Mendes nos mostra que o casal chamou à vivenda onde morava “a casa”, faz-se luz. Pessimista como era em relação à espécie humana, aquele lar com a envolvente era uma metáfora: o seu refúgio do mundo.»
Eu: «Há dias, em Lisboa, Carlos do Carmo deu uma lição de palco. Pelo profissionalismo – nunca se apresenta perante nenhum auditório, seja ele qual for, sem o trabalho de casa irrepreensivelmente feito. Pelo reportório – tudo quanto cantou, como aliás é seu timbre, era de uma irrepreensível qualidade. E pelas palavras que, na dose certa, soube partilhar com quem o escutava no Pavilhão Atlântico. Um artista é também um comunicador, como bem sabe este homem que, sendo fadista há 47 anos, decidiu “cantar umas sinatradas”, segundo ele próprio confessou, fazendo o gosto à voz, como se desfolhasse um álbum de memórias íntimas.»
