DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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João Campos: «Há algum tempo que não acompanhava na televisão uma série tão boa como The Walking Dead. Talvez desde Firefly (que, de resto, só vi recentemente) que não me deparava com uma série tão bem feita e com um grupo de personagens tão interessante. Baseada nas aclamadas graphic novels de Robert Kirkman, Tony Moore e Charlie Adlard, The Walking Dead acompanha um grupo de sobreviventes num mundo devastado por um apocalipse de zombies. A premissa é antiga, bem sei; já conheceu muitos meios, grandes sucessos (como George Romero e o canónico The Night of the Living Dead) e fracassos estrondosos (como os filmes da série Resident Evil, que apenas conseguiram arruinar o enorme potencial de uma grande série de videojogos). Mas, como esta série veio provar, a velha ideia está bem longe de estar esgotada.»

 

João Carvalho: «Sócrates recusa falar para já de uma eventual remodelação no Governo, o que só evidencia a própria evidência: sendo absurdo remodelar o Governo sem substituir Teixeira dos Santos, quem é que estaria disposto a pegar na pasta das Finanças neste estado de coisas? Sim, que o resto não passa de peanuts. Se for para substituir o ministro Mendonça e outros marcianos nem vale a pena, porque a gente já se habituou a não ligar. Não há dúvida de que o ainda primeiro-ministro está perante um dilema: não remodelar, ou retocar e mentir que remodelou. Não tem solução. Mas palpita-me que optará pela mentira. Ele há vícios que não descolam.»

 

Pedro Rolo Duarte: «Quando a democracia não responde por si, naturalmente, a quem dela duvida, quem por ela pode responder que não seja ditadura? Foi aqui que chegámos. É aqui que estamos. De uma vez por todas, alguém que nos grite o essencial: que este é o pior dos regimes, com a excepção de todos os outros. É por isso que clamam os democratas. É por isso que clamo e reclamo. Mas também é isso que, como o empregado salazarista do restaurante que frequento, começo a precisar que me provem. Já não chega acreditar.»

 

Rui Rocha: «Manual Prático de Prevenção do Novo Vírus da Dívida Soberana (edição especial para Governos de países endividados do Sul da Europa, revista e adaptada ao caso português): 

(…) Medidas e Orientações para elaboração de Planos de Contingência:  

a) Lavar frequentemente as mãos. A crise? Eh pá, não fomos nós. Não temos culpa nenhuma disso! Invocar sempre um brilhante track record de saneamento das contas públicas. Não esquecer de mandar um Postal de Boas-Festas ao Constâncio. Escovar também as unhas!

c) Manter distância de países infectados. Salientar a enorme diferença que existe entre a nossa situação e a de outros países que já foram contaminados. Semelhantes à  Irlanda, nós? Por amor de Deus! Os irlandeses são todos ruivos, senhores. Assobiar para o ar na presença de um Grego. Mudar de passeio perante a aproximação de um Espanhol.

d) Utilizar máscara de protecção. O vírus da dívida soberana transmite-se sobretudo pelos olhos. A máscara deve impedir por completo que se veja a realidade. Isso mesmo: convém não ver nadinha. É um bocadinho desconfortável, não é? A nossa saúde está primeiro!»

 

Sérgio de Almeida Correia: «A dois meses de uma eleição presidencial, com uma gravíssima crise social, económica e financeira a condicionar todas as opções políticas, que resultados práticos trará a greve geral de amanhã? Como acima afirmei, temos um Governo débil e fragilizado. Um Governo de maioria relativa, sem apoio parlamentar que lhe garanta estabilidade, e dependente dos juros impostos pelos mercados para se manter à tona da água, não tem condições para fazer cedências aos sindicatos, sob pena de à primeira cedência ter o FMI cá dentro e então afundar-se de vez. E nós com ele. Um dos paradoxos das greves gerais é que só são grandiosas com governos débeis, mas em contrapartida só apresentam resultados contra governos fortes.»

 

Eu: «Fidel Castro liderava um pequeno grupo de guerrilheiros que se opunham à ditadura de Fulgencio Batista mas era praticamente desconhecido fora de Cuba. Foi [Herbert] Matthews quem o transformou num mito ao projectá-lo para a manchete do seu jornal a 24 de Fevereiro [de 1957], uma semana após ter entrevistado o jovem comandante barbudo que Batista jurara ter morto uns meses antes. Afinal Fidel não só estava vivo como comandava “centenas de homens”, como Matthews garantira na reportagem [do New York Times]. O veterano jornalista, já com 57 anos, deixara-se iludir: Castro tinha apenas 18 homens armados na Sierra Maestra. Mas o mito do resistente hercúleo estava lançado: o furo jornalístico transformou-se no maior veículo de propaganda da “revolução” cubana, que triunfaria menos de dois anos depois – e se transformou numa ditadura mais feroz e muito mais longa do que a de Batista.»

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