
João Carvalho: «Há uns dez dias que tenho por cá uns amigos da capital. Nos Açores está sempre a chover, não é? Só que eles, a bem dizer, ainda não apanharam uma gota de água. Lembrei-me que talvez fizesse bem aos técnicos especializadíssimos do nosso Instituto de Meteorologia virem até cá apanhar ar. Assim como assim, livravam-se das cheias de Lisboa. Portanto, se ando menos assíduo nestes dias, é por uma boa causa: estou a cuidar dos anticiclones. Pode ser que apanhem algum mau tempo no continente, mas isso é porque ainda estou a treinar.»
Miguel Cardina: «Quem aterrasse no país vindo de um tempo-outro talvez se espantasse com o modo como falamos dos “mercados financeiros”. Não me refiro, é claro, à forma como as palavras ocultam uma parte importante da realidade. Como no meio de tantas notícias nos esquecemos de questionar o que são os mercados financeiros, de que forma funcionam e quais os caminhos para que o político deixe de estar tão assustadoramente resgatado pela finança. O que talvez mais espantasse o nosso comparsa do futuro é a forma como antropomorfizamos os tais “mercados financeiros”, acreditando que eles têm uma estimulante vida emocional. Ora “nervosos” como um condenado, ora “vigilantes” como um guarda prisional; ora “apreensivos” como um marido ciumento; ora exigindo “sinais” como um apaixonado inseguro.»
Teresa Ribeiro: «Com os votos do PS e do PSD, os partidos com quem sou obrigada a dormir vai para mais de trinta anos, foi aprovada, na quarta-feira, a nova lei de financiamento dos partidos políticos. Tratava-se de uma reforma que urgia. De cada vez que se falava em combate à corrupção e necessidade de transparência na nossa democracia este tema vinha sempre à baila. Lembram-se? Havia que pôr cobro aos financiamentos feitos pela porta do cavalo, perigoso foco de contaminação, que a antiga lei não prevenia. Havia que mudar. Mas quarta-feira eles acabaram a votar um diploma que não fecha essa torneira. Beneficiando de uma agenda mediática demasiado intoxicada com as medidas de austeridade, o FMI, e etc, os tipos com quem eu vivo há mais de trinta anos conseguiram o que queriam. Numa fase em que tanto se fala na necessidade de aproveitar a crise para mudar, eles mostraram qual é o seu espírito de mudança.»
Eu: «Na última edição do AvanteI, o neo-estalinismo continua em grande. A pretexto da próxima cimeira da NATO que se realiza em Lisboa, o jornal do PCP salienta que desde a sua criação, em 1949, esta organização “apontava o seu fogo à União Soviética, cujo prestígio no mundo era imparável por ter sido a grande responsável pela vitória sobre o nazifascismo na II Guerra Mundial”. Típica linguagem da Guerra Fria: o “órgão central” dos comunistas portugueses parece estar pelo menos há 25 anos parado no tempo, como se Tchernenko ainda fosse o ditador de turno na Moscovo soviética. Por um resquício de pudor, o nome de Estaline não é impresso nesta edição do jornal, mas a glorificação do estalinismo está lá, intacta, na referência ao “imparável prestígio no mundo” da URSS em 1949, então gerida com mão de ferro por Estaline, um dos maiores criminosos da História.»
