DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Adolfo Mesquita Nunes: «Com este Governo, com este primeiro-ministro e este ministro das Finanças, poderemos dizer que estamos perante gente responsável, capaz e com respeito pelas gerações futuras? Não me parece. Estamos por isso na eventualidade de oferecer um fósforo a um pirómano que se prepara para entrar numa floresta e deixá-la em cinzas. Isto é, estamos na eventualidade de dar aos socialistas (rima com despesistas) a possibilidade de continuarem a gerir o nosso dinheiro, deixando-o, precisamente, em cinzas.»

 

Ana Vidal: «No dia em que tudo ruiu, fez-se à estrada. Não olhou para trás. Não procurou entre as cinzas, soterrados nos escombros de uma vida, sonhos desfeitos que ainda pudessem respirar. Não socorreu memórias sobreviventes, deixou-as asfixiar no fumo que sobrou da grande fogueira que tinha ateado, ainda inconsciente da catástrofe que se avizinhava. Passou por cima de gestos e de palavras, pisou sorrisos agonizantes com os pés nus, já calçados para a viagem. Escorraçou todas as lembranças que teimavam em agarrar-se-lhe à pele e afugentou fantasmas, velhos conhecidos a quererem transpor com ela a porta de entrada. Ou de saída. Só de saída, nesse dia.»

 

Helena Matos: «A doença fascina-nos. Falar sobre doenças é uma mania nacional. E sobretudo a doença é a porta de saída para o que não se quer ver, ouvir e dizer. Os colegas são insuportáveis? Mete-se baixa. A família não funciona? Diagnostica-se uma depressão. A vida corre mal? Sofre-se de um síndroma raro. Tudo somado, não existe um português saudável.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «De um aviso afixado em papel cor-de-rosa no Tribunal de Família e de Menores de Vila Franca de Xira: “Procedimentos a evitar na sala de audiências: Mascar pastilha elástica / Usar telemóvel / Óculos de Sol na cabeça / Mãos nos bolsos“. Quando em casa ninguém diz nada e a escola pública não ensina, acabamos a ler coisas destas nos tribunais.»

 

Teresa Ribeiro: «Há dias, como o de hoje, em que os jornais ganham vida própria. Lemos na primeira página que o primeiro-ministro está a fazer um esforço e esse título persegue-nos, mesmo quando já passámos para outras notícias. Inteiramo-nos sobre o desemprego na construção civil e na foto vemos suspensa dos andaimes a progressiva dificuldade dos portugueses em comprar casa, que é a matéria da informação que está ao lado. Os cortes no abono de família, em vigor na segunda-feira, é outra notícia que nem por isso nos distrai do tal esforço do PM.»

 

Eu: «Estamos a ser testemunhas de um dos momentos mais tristes da História: o do fim do estado de bem-estar, do estado social, do estado-providência que levantou a Europa das cinzas da guerra. Este período prolongou-se por 60 anos e teve os seus heróis: Alcide de Gasperi, Konrad Adenauer, Clement Attlee, Robert Schumann, Paul-Henri Spaak, Jean Monnet (europeus), Harry Truman e George Marshall (norte-americanos). Foi um período ímpar de crescimento económico e paz social, com largos anos de pleno emprego e um cortejo de conquistas em vários planos – da queda drástica da mortalidade infantil à virtual erradicação do analfabetismo. Foi uma revolução sem bombas nem mortos – uma revolução silenciosa que levou o progresso a centenas de milhões de pessoas no continente europeu e, por natural contágio, a outras partes do mundo. Um longo caminho se percorreu dos heróis de então aos vilões actuais, coveiros do estado social que garantiam proteger. De uns e outros falará a História – a que se deixa seduzir pelos factos, não pela propaganda.»

8 comentários em “DELITO há dez anos”

    1. Sim, poderiam ser escritos hoje, mas estavam embrulhados em serenidade, num certo «glamour». Poderíamos não concordar com os autores dos textos mas percebíamos o que queriam dizer. Hoje, -hélas! – estamos, apesar de continuar a passar por aqui,longe, bem longe desses «Há 10 anos», até porque muitos deles deixaram de aparecer.

      1. A Helena Matos mantém o ‘glamour’. Mas só escreveu aqui, faz hoje dez anos, como autora convidada – e muito me agradou que tivesse correspondido ao nosso convite.

  1. Há uns anos circulou aqui pelo Delito um link para um alfarrabista ou livraria especializada em livros difíceis de encontrar. Creio que era um link do Facebook ou de um blogue..

    O Pedro ou outro seu colega por acaso recordam-se e conseguem recuperar esse link?

    Abr Obr

    1. Bem gostava de saber eu também. Até porque ando à procura de três livros “difíceis” (há muito esgotados):

      – O Templo da Aurora, Yukio Mishima (Presença)
      – O Tambor de Lata, Günter Grass (D. Quixote)
      – Mortal e Rosa, Francisco Umbral (Campo de Letras)

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