DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Ana Margarida Craveiro: «O director da escola de Felgueiras refere que, se pudesse transpor a sua estrutura toda para Coimbra, também conseguiria os mesmos resultados. Quer-me parecer que ia ficar desiludido: não é só o carácter urbano da escola que é um factor de sucesso. O D. Maria, antigo liceu nacional feminino, consegue reunir uma população escolar quase exclusivamente vinda de classe média, com uma elevada taxa de estabilidade de professores. O liceu não é muito grande, e estamos a falar de alunos, na sua maioria, com pais instruídos (muitos professores, médicos e advogados), com um rendimento bem acima da média nacional. Evidentemente, esta particular fatia social está relacionada com a localização da escola: urbana, classe média alta, zona bem tratada (Solum, em Coimbra). Mas não há milagres. Compare-se o D.Maria, uma escola pequena que se dá ao luxo de escolher alunos, com a Avelar Brotero, uma escola maior, situada uns cinquenta metros ao lado. As diferenças saltam à vista.»

 

Cristina Nobre Soares: «Ela faz lentamente a cama de lençóis brancos. Num quarto igualmente branco. Suspira quando olha para a cadeira de madeira preta perto da janela. Ela sentava-se todos os dias ali, diz. A olhar uma janela que para ela já só tinha dentro. O nome? Não tinha. Ou pelo menos o que os filhos aqui deixaram não era o dela. Nem a morada. Para que não tivesse um sítio de retorno. Trazia a roupa do corpo e as pernas negras. Caiu, disseram. Todos os velhos que perderam o nome e o sítio no mundo acabam por cair. E ficam aí. Os que ainda se lembram, esperam. Os que, como ela perderam a memória, apenas ficam. Os outros esperarão por eles.»

 

João Campos: «The Moon Is a Harsh Mistress consegue, para além de ser uma obra extremamente inteligente, ser uma leitura muito divertida. Aliás, desde a leitura de The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, de Douglas Adams, que não ria tanto com um livro: desde o início, em que “Mike”, o computador consciente, adquire sentido de humor e procura compreendê-lo, até todas as peripécias que decorrem da revolução. Foi, sem dúvida, uma obra excelente para começar as minhas leituras de Outono. E que aproveito para recomendar.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «O modo como sucessivos governos se mostraram incapazes de combater os múltiplos corporativismos instalado neste país, do lobby da farmácias aos dos tribunais, passando pelos da construção civil e pelos gangues religiosos e ateus que se especializaram nas movimentações baixas e marginais do regime, devia ter levado os portugueses a interrogarem-se, a saírem para a rua, como hoje fazem contra as inevitáveis cobranças nas SCUT, exigindo mais qualidade na democracia, maior eficiência das instituições, maior rigor no controlo das contas públicas e dos desvarios das parcerias público-privados, em suma, exigindo na rua melhores políticos, gente capaz e competente.»

 

Eu: «No país de Sócrates, quando era necessário caçar votos (na campanha legislativa de Setembro de 2009), o primeiro-ministro disse esta frase lapidar, num frente-a-frente televisivo com Francisco Louçã: “Estas pessoas que fazem as suas deduções fiscais na Educação, na Saúde e nos PPR não são ricas, é a classe média. Isto conduziria a um aumento fiscal brutal para a classe média, mais de mil milhões de euros.” O mesmo primeiro-ministro que acaba de fazer precisamente aquilo que há um ano imputava ao líder do BE: um aumento fiscal brutal, mandando as deduções às urtigas.»

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