DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Ana Margarida Craveiro: «Todos os dias, exceptuando terças, quintas e sábados, o nosso lixo não é recolhido. No caixote, um papel da fiscalização a dizer quais os dias “certos” para a recolha. Liguei para a Câmara, a dizer que isto não podia continuar. Explicaram-me que tenho o caixote errado, destinado a lixo comum, e portanto nos restantes dias não podem recolher. Existem caixotes com tampas diferentes, que a Câmara distribuiu. Pergunto quando foi feita a distribuição dos ditos caixotes novos. Dizem-me que as equipas de rua passaram por todos os números, para actualizar os caixotes. Volto a perguntar exactamente a mesma coisa, e digo que o meu prédio não tem espaço para tantos caixotes (três diferentes num prédio de 1910 sem hall de entrada era capaz de ser engraçado enquanto gincana). Do outro lado, vão buscar o projecto, para perceber o que se passa: surpresa das surpresas, dizem-me que vivo num prédio arrendado. Pois, eu sei. Que o senhorio mora longe. Pois, também sei disso. E como tal não há ninguém responsável. Resultado: não temos direito a caixotes novos, e a recolha.»

 

João Carvalho: «Na política, príncipes e plebeus fazem asneiras, mas os plebeus fazem mais porque são muito mais rápidos e sobra-lhes muito mais tempo para fazê-las, como cem anos depois se vê com grande clareza.»

 

Luís M. Jorge: «A pergunta é esta: quando deve Passos Coelho aceder aos berros pungentes da pátria? Resposta: no último minuto. Até lá, mais vozes se unirão ao coro. E o povo conhecerá dia após dia, se as agências de comunicação não forem parvas, aquilo que deve conhecer: os delírios galantes dos ajustes directos e dos eventos, das comemorações e das chazadas. A dissipação abjecta dos recursos públicos por amigalhaços e correligionários. O sofrimento dos almeidas santos e dos pedros soares. Depois, só depois, virá a aprovação — e com ela o negrume. De maneira que a situação é a seguinte: Passos Coelho não está acabado. Vocês é que estão.»

 

Paulo Sousa: «Perante a inacção do Estado, que Governo após Governo nada faz, caberá à sociedade civil criar pressão para o mais rapidamente possível evoluirmos para uma situação mais equilibrada. Quem de facto quiser ajudar as crianças institucionalizadas deve procurar alargar ao máximo a base de apoio deste movimento. Nesta linha de pensamento, pergunto-me porque é que alguns dos sectores ditos progressistas, que se dizem genuinamente preocupados com a felicidade das crianças, desprezam à partida o apoio da Igreja neste grupo de pressão. Arrisco uma resposta. Isso acontece porque não são as necessidades e os direitos das crianças que estão no centro do debate, mas sim de uma certa agenda política.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Enquanto o líder diz “nim” em matéria de Orçamento e se passeia pelas feiras, esclarecendo a quem passa que o PSD não tem qualquer responsabilidade na crise mas que isso não pode ser dito senão depois os “tipos ainda ficam zangados“, o secretário-geral do PSD acusa o Governo de fazer chantagem exactamente ao mesmo tempo que um dos seus vice-presidentes se mostra disponível para negociar com total abertura com esse mesmo Governo que é acusado de chantagem.»

 

Teresa Ribeiro: «Quando leio comunicados como este divirto-me sempre a pensar no esforço a que obrigam. Que ginástica mental será necessária para os seus autores acreditarem no que escrevem? Neste caso concreto, como contornam no seu espírito a questão da defesa dos direitos humanos? Poderão em consciência condená-la?»

 

Eu: «Ministro das Finanças em 1980, destacado membro da oposição interna a Francisco Pinto Balsemão nos anos seguintes, líder do PSD e primeiro-ministro entre 1985 e 1995, candidato presidencial derrotado em 1996, chefe do Estado eleito uma década mais tarde, Aníbal Cavaco Silva ocupa um lugar central na política portuguesa há 30 anos exactos, tendo condicionado a estratégia de sucessivos líderes sociais-democratas por acções e omissões de vária ordem. É tempo de escrever o terceiro volume da sua Autobiografia Política, desta vez dedicado aos anos decorridos no palácio de Belém, e deixar espaço a outras personalidades no espaço político em que se insere. Para evitar ficar permanentemente associado à imagem do eucalipto. Que seca tudo em seu redor.»

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