
Adolfo Mesquita Nunes: «Fica-me mal, tenho plena consciência disso, mas não gosto de Lisboa em Agosto. Não sinto apego pelas ruas surdas, pelas avenidas enormes ou pelos lugares à espera nas esplanadas e miradouros. Em Agosto, Lisboa deixa de ser um privilégio, uma cidade escondida, objecto de duelos e conspirações. De repente, a cidade esquece quem a conhece e abre as suas portas a quem, cá vivendo, se deu ao luxo de a ignorar durante onze meses. Já não é preciso chegar cedo, reservar, correr, rezar. Basta cruzar a esquina e sentar. Como se aquela vista, aquele lugar, não merecesse um combate sério para o alcançar. Como se o prazer de lisboetar pudesse, afinal, esperar pelo vazio.»
João André: «Antes de sair do país eu confessava-me, antes de mais, europeu e só depois português. Pensava-o por julgar os europeus muito semelhantes, por os ver apenas como pequenas variações sobre o mesmo tema. Hoje, após ver o erro inerente a esse pensamento, ainda mais me afirmo português. Em parte porque perdi alguma identidade portuguesa, mas em muito maior parte por ter percebido aquilo que une os europeus e, acima de tudo, os seres humanos: os simples afectos desbloqueados por uma conversa. Sócrates, o original, é que a sabia toda.»
João Carvalho: «Diz Pedro Santana Lopes que “Marcelo Rebelo de Sousa sabe bem que Francisco Sá Carneiro me solicitou” qualquer coisa relacionada com questões constitucionais e que não vem aqui ao caso. O que vem ao caso é o meu espanto por uma bacoquice de Santana Lopes que eu não esperava dele, tão dado a pergaminhos(?) que é. Ninguém (e muito menos o próprio) deve dizer que outro lhe solicitou algo. Há uma hierarquia em solicitar e pedir: solicita-se de baixo para cima e pede-se de cima para baixo. Além disso, por simples bom gosto, ambos devem dizer que lhes foi pedido (e nunca solicitado), quando reportam o facto a terceiros, para não se inferir que se está a colocar o outro em plano inferior.»
Luís M. Jorge: «Quando um administrador recém-chegado a uma empresa em crise não sabe o que fazer, encomenda um novo logótipo. Quando um presidente recém-chegado a um partido em crise não sabe o que fazer, encomenda uma nova constituição.»
Paulo Gorjão: «Independentemente dos méritos e dos defeitos das propostas de revisão constitucional que o PSD venha a apresentar, elas têm desde já uma enorme virtude: serão um factor de clarificação política. Essa virtude já ninguém lhe tira. Acresce que além de marcar a agenda política, uma vez mais, as propostas do PSD ajudarão a perceber quem verdadeiramente assume a bandeira e a causa reformista.»
Eu: «Lilith – baseado no romance homónimo de J. R. Salamanca – é um filme lento, sincopado, feito de prolongados silêncios, intercalados pela memorável partitura de Kenyon Hopkins. É construído como as teias que surgem no fabuloso genérico de Elinor Bunin. E com planos fixos que nunca esqueceremos: os raios de sol reflectidos nas águas; Beatty a escutar, atento, o diálogo entre Lilith [Jean Seberg] e Stephen Evshevsky (Peter Fonda) à beira das cataratas; as folhas de uma árvore rasgando o nevoeiro; a desoladora cozinha da desolada casa de Laura, a ex-namorada de Vincent, incapaz de perceber que para ela o tempo do “esplendor na relva” já passou.»
