DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Ana Vidal: «Assisto, estarrecida, à cobertura televisiva das cerimónias fúnebres de José Saramago na Praça do Município. Todas as entrevistas procuram a polémica, o sangue, a acusação fácil, o ajuste de contas, com um total desrespeito pelo homem que “jaz morto e arrefece” ali mesmo ao lado. O aproveitamento político de uma circunstância desta natureza sempre me enojou, e aquilo a que assisto hoje é à costumeira hipocrisia nacional: salvaguardadas as aparências, mantidas com pompa e circunstância, semeie-se o veneno. Como se não bastasse, é confrangedora a ignorância dos pivots a quem está entregue a carnificina.»

 

João Carvalho: «Tenho seguido de forma intermitente os directos e os apontamentos televisivos em torno de Saramago, além dos blocos noticiosos e dos debates sobre este e sobre qualquer outro assunto. Correndo o risco de ser injusto por me ter escapado alguma coisa, posso dizer que praticamente não vi um homem de gravata preta. Mesmo entre políticos e autoridades oficiais, o símbolo tem andado muito arredado. Afinal, se não houver sinais simbólicos que nos unam, o que é que sobra ao nosso colectivo pátrio?»

 

Leonor Barros:  «Cavaco Silva, Presidente da República Portuguesa, Presidente de todos nós e vós, o mesmo que gosta de alardear a isenção e que se mostra incapaz de exprimir uma opinião para não ferir susceptibilidades, não esteve presente nas exéquias de José Saramago. Desconheço o sentido de Estado deste Presidente, desconheço onde parará a tão alardeada isenção. Não é preciso Cavaco Silva ter lido José Saramago, duvido até que o tenha feito, muito menos que partilhe das suas convicções políticas ou religiosas, mas Saramago, quer se goste ou não, é um vulto da literatura e cultura deste país, reconhecido e lido internacionalmente, seria muito pedir ao Presidente da República que largasse a alcatra e o bolo lêvedo e estivesse presente?»

 

Luís M. Jorge: «Ninguém sabia onde repousava a carcaça do imortal escritor. O cenotáfio do panteão, em mármore rosa e letras douradas, continha um maço de poemas de amor legado pela viúva inconsolável à pátria que não o merecia. Sussurava-se que duas tíbias esquerdas, certificadas, originaram uma década de contendas judiciais entre a curadora de um museu municipal e o presidente da fundação registada em seu nome. “Bandido”, “falsária”, “sabujo” eram alguns dos termos que ornamentavam os autos.»

Um comentário em “DELITO há dez anos”

  1. Não diriam o mesmo de um Nacional-Socialista. E isso já diz tudo sobre onde vão parar.

    lucklucky, o kulak.

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