DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Ana Margarida Craveiro: «Ouvir notícias sobre a Páscoa é quase de chorar a rir, se não fosse uma celebração da ignorância sobre a história das religiões. À hora de almoço, meio distraída, dou por mim a ouvir o que a jornalista insistentemente dizia na sua peça: os cristãos celebram este fim-de-semana a Páscoa com os protestantes, os ortodoxos, e por aí fora. A Páscoa torna-se assim uma espécie de reduto privado do catolicismo, provavelmente inventada quando este último nasceu, ao qual as restantes religiões (não cristãs, evidentemente) se podem associar. Enfim.»

 

Teresa Ribeiro: «Este é o meu primeiro dia em Tóquio. Cheguei de manhã, a tempo de circular umas horas pelas ruas, meio à toa, só para sentir esta cidade de fusão, mas agora estou knock-out. Janto na esplanada de um restaurante que se situa perto de uma estação de comboio. Observo o movimento da hora de ponta e penso: “Já vi isto”. Os bandos de meninas com farda de colégio, os funcionários do terciário de telemóvel e pasta. Tudo cenas de reportagem ou de filme. Passou mesmo agora por mim uma mulher de quimono e chinelas. Parece que passou de propósito para a meter nesta carta. Pensava que já ninguém andava assim na rua, mas hoje vi uma meia dúzia de mulheres com esta indumentária.»

 

Eu: «É a frase mais dramática de toda a Bíblia. A frase que Cristo profere na cruz, quando todas as forças já lhe falecem no corpo em chaga, e brada aos céus com o último alento que lhe resta: Eloí, Eloí, Lama sabachtami? Este episódio da Paixão, que vem mencionado nos Evangelhos de Mateus (27,46) e Marcos (15,34), sempre me impressionou. Porque nos revela, mais que nenhum outro, a face humana de Jesus – as dúvidas, as angústias, a profunda inquietação existencial de um Jesus terreno, despido da sua condição divina, igual a todos nós. Na dor, no sofrimento, no desamparo.»

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